quinta-feira, 27 de abril de 2017

Cronicas do Sardo Mineiro

O PESO DO TEMPO


Giuseppe, o sardo, era um bom homem. Dentro do possível, pagava seus impostos em dia. Bom amigo e protetor de sua família. Bem prezado em sua comunidade, mas a situação de seu país natal o forçou à imigração tardia. Desfez de seus bens e despediu de amigos e parentes. Aos 45 anos, quando boa parte dos agricultores de sua querida terra buscava a tranquilidade da rotina, um turbilhão de ideias e provocações abateu sobre sua provinciana mente. Trazia na bagagem a esposa e seis pequenos filhos, o que aumentava demasiadamente a responsabilidade de sua decisão. Deixaria para trás as lembranças de sua terra, a casa que construiu com dificuldades, a criação que dispensara tantos cuidados e suas prestimosas ferramentas de trabalho. Seria mais um imigrante a “fazer a América”, sem pátria, sem identidade e sem lembranças. O pouco que trazia, além das roupas melhores no corpo, era sua questionada coragem. Este impulso de loucura que levou a entrar num navio com toda família, em busca de tempos melhores, numa terra que nunca pisara ou conhecera. Sem identidade, portando apenas o poder simplório da palavra de um homem simples, desguarnecido de armas ou argumentações. Não teria a quem reclamar, exceto chorar solitário com seus frequentes monólogos, protegendo a esposa das preocupações que eram só suas. Vida de imigrante, vida de abastardos. Por mais enevoado que sejam os tempos vindouros, temperava-os com seus sonhos quixotescos, buscando a “ilha” que governaria, parida toda em sua mente.


Há decisões na vida que são irreversíveis, jamais retornam ao sossego de suas origens. Uma delas é certamente estar vivo. Não escolhemos vir a este mundo de loucuras, o que torna incondicional e imperativo o fato que ficaremos velhos. Não temos opções, exceto o fato que podemos mudar de caminho, reciclar condições e ideias, como despojado e louco imigrante. Giuseppe contorcia de saudades em seus últimos dias, porque enquanto buscava sua ilha de fartura e prosperidade, tornou-se de fato uma “ilha”, enclausurado em si mesmo. Afinal, não são assim os velhos de qualquer lugar, isolados, sonhadores, amargos ou cheio de bravatas por contar? Seus filhos casaram, formaram famílias distantes e não vieram visitar. As reclamações faziam parte de seus dias, como as dores da sua espicaçada coluna.  A esposa fora enterrada há alguns anos atrás a centenas de quilômetros, deixando implacavelmente a saudade até de suas reclamações, destas que o fizeram quebrar as amarras de seu tempo e desbravar terras além mar. E pensando assim, viu que as reclamações são combustíveis dos velhos, não aquelas que os fazem ranzinzas, mas que os lança adiante e em novas experiências. Dispensaria a “Acabadora”. No fundo de sua alma “ilha”, sabia que o descontentamento é que ditava ritmo à sua vida, a toda sua geração e família. E isto seria a maior herança do seu tempo, a sopa primordial que correria na veia de seus sucessores, tornando-os capaz de enfrentar e desafiar o mundo. A coluna pode vergar e ameaçar a ruir, mas imigrante que se preza não deita para morrer, morre em pé, sustentado por seus sonhos, eterniza. E assim deve ter sido...
_______________________________________________________________         * José Capaz Dutra Cappai, 53 anos, é jornalista, historiador e pesquisador da imigração sarda para o Brasil. Autor do Livro "A ILHA QUE ATRAVESSOU O MAR", em fase de publicação.


Crônicas do Sardo Mineiro

A CHAVE DO TEMPO

Em sonho, veio uma revelação inesperada, através do Anjo dos Pastores sardos. Da longínqua Criação do mundo veio uma herança maior aos homens, a chave do tempo. Não era uma arca, não era de ouro, um troféu, nenhuma tradição oral, nada de pedras ou ervas sagradas, mas o divino som dos sinos. A sua perfeita afinação é a chave do tempo. E o vento que leva seus segredos, pode trazer de volta o ressoar dos tempos, como o ir e vir das ondas. Tem o som do Universo, do equilíbrio e da Criação do Mundo. Tem o segredo dos tempos passados e a sintonia com o futuro.

São muitos os sinos e suas finalidades. Os sinos das naves ao mar e aqueles que guiam nos faróis em tempos ruins. Os sinos dos Nuraghes, da idade do bronze. Os sinos das igrejas e o anúncio do sagrado. O sino fúnebre. O sino do natal, anunciando a Boa Nova. O sino da contemplação budista ou tibetana. Sino dos Ventos alertando os tornados. O Sino do garçom, saindo o prato perfeito, a hora da degustação.  O Sino da portaria do hotel para a chegada do hóspede. O Sino da cultura dos Mamuthones. Os Sinos de alerta das Cabras aos pastores. O sino que aportou junto com as caravelas, na fundação de Pindorama, em terras distantes da Sardenha. Ressoa a partida, a promessa, a chegada, a alegria, distribuindo bênçãos.

Sete por cento da população convive com um zumbido nos ouvidos, um tal “Tinnitus”. Não tem causa mecânica ou clínica, vão e vem sem motivo qualquer, sem ter qualquer remédio que o encerre definitivamente. Há cerca de cinco anos, muito incomodado pelo zumbido e após uma leva de antibióticos sem nenhum resultado, fui a um médico de nome Wilson, mineiro de Pouso Alegre e a resposta que tive dele foi que: “...enquanto falava do seu zumbido, acabou de alertar o meu”. E concluiu que era normal, era só não preocupar com ele, desencanar, que ele partiria como veio. Então, comece a pesquisar também, assim como fui instigado. Chegará nos 432 hertz, a frequência do Universo, o zumbido primordial. Surpreenda com a “Afinação de Verdi”, o compositor italiano que sintonizou em suas composições nesta frequência. Se adentrar o campo místico, se encantará pela Terapia dos Sinos, principalmente na cultura oriental.


Em 1821, em Cagliari, Ilha da Sardenha, o construtor Raffaele Cappai reformou o sino da igreja barroca. Em 1969, o módulo lunar da Missão Apolo 12 foi arremessado na lua e ela soou como um sino por oito minutos, gerando até hoje um enigma para os cientistas. Em 1978, na época seminarista, toquei o sino da Catedral de Leopoldina e fascinei pelo ressoar sagrado dos sinos. Em 1986, maravilhei com o repicar contínuo dos sinos na Semana Santa em Ouro Preto. Em 2 de Abril de 2005, os sinos repicaram no mundo todo pela morte de João Paulo II. Hoje, me divirto no quintal de casa fazendo Sinos de Vento e escutando suas diversas entonações na passagem dos ventos. Viajo na parte de minha alma, dos pastores ancestrais, que escutava suas cabras ao largo. Quantas histórias e recordações trazidas no ressoar dos sinos, se revelando a “chave do tempo” dita pelo Anjo dos Pastores Sardos...

_______________________________________________________________         José Capaz Dutra Cappai, 53 anos, é jornalista, historiador e pesquisador da imigração sarda para o Brasil. Autor do Livro "A ILHA QUE ATRAVESSOU O MAR", em fase de publicação.


Crônicas do Sardo Mineiro

Sono sardo.

Uma decisão pessoal com implicações místicas e familiares, que ocorrem pelo menos uma vez na vida, essencial para uns e sem nenhum valor para outros. Mas seja o que for, há coisas na vida, em que o apelo espiritual esgoela mais alto que a opinião de quaisquer viventes, ainda que estes estejam profundamente ligados à sua existência. Então seja o que for, vá e faça, não deixe que lhes roube este momento que é todo seu. E foi assim que alterei meu nome e sobrenome, em homenagem às descobertas de minhas origens sardas. Meus ancestrais atravessaram o Atlântico, vindos da ilha da Sardenha, traziam a alcunha de “Cavaleiros Hereditários e Nobres Sardos”, titulo familiar recebido em 2 de novembro de 1677. Mais que isto, a genética centenária da ilha grita forte em minhas veias, nada soberbo ou superior, mas da descendência de simples e rudes pastores de ovelhas, atentos e honrados por acompanhar seus rebanhos.

E na crise que assolou toda Europa, Giuseppe Cappai e sua esposa Maria Annica Gessa, com seis filhos, entre eles meu avô Raffaele, no ano de 1897, atravessou o Atlântico e veio ter incólume nas terras de Leopoldina, com todos os desencontros mal enraizados na vasta zona da Mata mineira. Eram empreendedores e sonhadores como milhares de imigrantes que constituíram a história brasileira, deixando frutos que melhorariam pelo trabalho este país sul americano. O estudo da genealogia e busca da cidadania passou a ser a vereda do reencontro com minhas raízes. Esta busca deu sentido à vida deste cinquentenário, aponto de torna-se a razão de viver e escrever. É um caminho solitário, de cunho histórico e espiritual, que sobrevive dos fragmentos de uma tênue “arqueologia” familiar; algo muito profundo, pessoal e inarrável. Um sentimento impar, diria original.

- Sua filha fez o mapa astral e aponta que o nome alterado resgatou coisas antigas do passado, que precisam ser trabalhadas.

- Em que aspecto?!

- Sim pai, nas runas apontou Odin, o Deus nórdico, que aponta que a ancestralidade precisa ser trabalhada. A consultora do mapa disse que terei que fazer a “Constelação Familiar” e até consultar uma psicóloga.

- Seu pai está viajando?! – Pergunta meu pai com 83 anos e portador do Alzheimer, olhando através de mim, olhar vago e crispantes ao interrogar, como se todos meus ancestrais o perguntassem.

- Não meu pai, está aqui perto de mim.  – Ao que concluo em pensamentos, com a voz de todos meus ancestrais, pais nunca saem das memórias. E chegará o dia que as ideias falharão, porque o tempo se encarrega de apagar a própria história como sinal de renovação. E vivemos um tempo que é perda de tempo falar do antigo, porque o jovem não relaciona com os velhos, exceto o passeio “vintage” para recordar o antigo em museus...

- Quando mudou o nome, puxou toda energia ruim de seus antepassados, agora sofremos com sua decisão! – A frase da “patroa” me soou como um vinagre sobre a boa refeição e o espetacular resultado do vinho chileno. Curtia estar ali, no almoço de sábado com a família, fazendo valer os esforços de meus ancestrais na travessia do grande mar. Abandonaram seus amigos, cultura, sua ilha, suas terras, seus ideais, para estar ali representado naquela mesa. Mas algo fugiu ao controle, quando os ventos nos conduziram a outros portos...

Uma explosão ecoou em meu espírito, tendo como o epicentro o ponto mais profundo de minhas convicções. Não poderia aceitar e o terremoto foi inevitável...

- Não misture os assuntos, por favor! Não carregue de culpa minhas escolhas. Não sou responsável pela crise financeira que passa o Brasil, esta merda de governo petista e muito menos pela falta de alternativas no momento. Não sou responsável pela corrupção do governo e seus efeitos sobre o orçamento familiar, mas nada disto se relaciona com minha opção. Orgulho de minhas raízes, sou descendente de pastores sardos. Nada que possam dizer de minhas opções, mudará meus caminhos. Tenho certeza que minha história é boa e meus frutos falam por mim. Não me julgue, porque não estou julgando ninguém. A história de cada um é o que diz, é de cada um, a ninguém interessa senão a mim... Mas tenho comigo que, se a ninguém interessa pela história familiar neste momento, não posso parar, porque nascerá algum dia alguém que irá se interessar. Não posso tirar dele o acesso a este conhecimento.

          A resposta do “terremoto” expandiu-se com moderada carga semiótica, a partir dos ecos de seu epicentro, ao que posso chamar apropriadamente de Zona de Divergência. Saiu do Jornalista para sua esposa Jornalista, ambos formados em 1992 na primeira turma de Comunicação Social da Univás; repercutiu seus efeitos mais brandos às duas filhas distantes, que passaram por indiferentes à discussão. Passada a explosão e o silêncio que decorre de toda atividade sísmica, saio convicto de que o interesse da história esbarraria naquela máxima “Deixe seus mortos enterrar seus mortos.”, como se tudo estivesse enterrado e nada mais faria diferença conhecer, difundir ou defender. Sacudi a poeira, afastei-me da discussão isolada e dos efeitos cataclísmicos desta genealogia e astrologia mal resolvida e passo a digitar algumas linhas, quando sinais de uma reconstrução reergueram fragmentos da alma nos escombros...

A amiga e esposa que me acompanha há 27 anos seguira até o escritório, dando-me um beijo na face. Vinha em missão de paz, como a Cruz Vermelha a socorrer sobreviventes da catástrofe, com a certeza que o faria, como sempre fez, confirmando que vale a pena prosseguir a história. Que apesar das inquietações da história e o isolamento de nossos dias, a única verdade é estar vivos e bem. Mas uma parte de mim reclama por revoluções interiores, inquieta por enigmas insolúveis, sacolejada por pequenos abalos sísmicos diários, segue pela saudade de uma terra que nunca conheci, até quando não sei. E num lampejo de lucidez de meu pai, com um brilho no olhar e certo sarcasmo no sorriso moleque, vem à memoria e me diz:

- Lá vem você de novo, com esta história dos sardos!

Ao que respondo agora, depois deste episódio:  - Per sempre, padre mio, io sono sardo!



_______________________________________________________________            José Capaz Dutra Cappai, 53 anos, é jornalista, historiador e pesquisador da imigração sarda para o Brasil. Autor do Livro "A ILHA QUE ATRAVESSOU O MAR", em fase de publicação.

Crônicas do Sardo Mineiro

O Mar de Shardana
             José Capaz – 02/11/2016

Cappai, sardos de sangue e alma fortes,
Raízes viris, profundas e enraizadas ao relento,
Herdeiros da milenar Shardana, “popolo di mare”,
Origens mediterrâneas, megalíticas e relevantes, o tempo.

Lavorava em tempos idos os vinhedos villasaltesi,
Sobre pedras enigmáticas de Nuraghes, cabras ao horizonte.
O mar como fronteira, no coração mole de rochas insondáveis,
E, incontinenti, no “Risorgimento”, arrancaram-lhes a terra.

Cappai, família sem terra, identidade provocada,
Genética flamejada de Giuseppe e Maria Annica, família ao mar.
O olho perfurado pela colheita nas vinhas, de sua filha Maria,
Preconiza, além das montanhas de Biddesatu, tempos de carestia.

Chama viva consome a alma, sacolejada por veredas incertas,
De prosaicas cantigas dos “gens” que decidiram pelo mar,
Falam guerreiros e aventureiros d’outrora, ventos arredios.
Trouxeram ao sacolejo das ondas seis filhos, para América conquistar.

Cappai, destroçado pela rara travessia, morre Maria,
Memorizando na América a nevada Gernnagentu, divide a família.
Giuseppe só, imigrante destemido, agoniza sem meios de rever sua ilha.
E, em serras capixabas, espírito de Shardana, há sempre de avistar o mar.

Oh! Giuseppe! mio bisnonno, história perene que me encanta,
Neste Dia de Finados, aqui na serra da Mantiqueira, distante do mar.
Giuseppe, Maria Annica, Antonio, Maria, Salvatore, Filomena, Danielle, Raffaele,

Renascem todos na inquietude da alma, a ilha que anseio reencontrar.


_______________________________________________________________            José Capaz Dutra Cappai, 53 anos, é jornalista, historiador e pesquisador da imigração sarda para o Brasil. Autor do Livro "A ILHA QUE ATRAVESSOU O MAR", em fase de publicação.

Crônicas do Sardo Mineiro

Ter sangue sardo é...

Cultivar a ilha paraíso no coração, sem fazer da alma uma ilha.
E mesmo cruzando extensos mares, carregar sua história milenar.
É cantar cappela e ecoar seus sentimentos ao longe, abraçando o mundo.
Numa mística forma que envolve todas as estações e sentidos.
É ser forte e galgar alturas como muflones nos rochedos.
Ter a paciência de pastores e monges a vigiar seu rebanho.
É não se entregar fácil aos desafios de seus algozes, na nobreza de javalis.

Ser família, como profissão de fé diária.
Seguir procissões e ritos, pedir a benção do nonno nas árduas campanhas.
É não ceder ao jogo da vida, como pedras que se moldam ao vento inclemente.
Sentir-se parte da natureza, do cosmos às profundezas do ser, colhendo uvas.
Ter adiante das veredas, a presença de São Miguel Arcanjo.
Agir no tempo certo, calmo como a corticeira que se deixa cortar e servir.
Sentir-se pleno aos pés das montanhas, com Gennargentu a nos sondar.

É ter no vino, formaggio di pecora, pane curasao, uma conexão celestial.
Viajar pela gastronomia, como el trenino contornando serras e mar de rara beleza.
Cultivar a arte na madeira, na cortiça e na rocha, gravando-a para a posteridade.
Guardar n’alma, mais de sete mil torres de enigmática beleza, uma parole sem fim.
Desfazer-se das máscaras e do sentir Mamuthones, ao som dos sinos e ventos.
Na manhã seguinte, renascer livre e forte como um histórico Giganti di Prama.
É dizer Io sono Sardo, cujas raízes nurágicas se perdem nas brumas do tempo.

Quando vir a solidão, invade n’alma o canto de launeddas ao vento.
Ou grite e ouça seu eco nas montanhas, como puro manifesto da liberdade.
É falar de política, no ir e vir de ideias gramscianas, de um mundo manipulado e perdido.
Tomar uma Ichnusa, quando todos os argumentos falharem na vagueza do ser.
Ter odores e sabores dos campos floridos e entender a neve, quando tudo adormecer.
Acordar com o dia em brumas na Pinnetta, rodeado de cabras e pensamentos.
É tudo sonhar, sem nunca ter estado no lugar, mas viajar com a alma de Deledda...


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18/04/2015
Poesia de um descendente sardo.
_______________________________________________________________            José Capaz Dutra Cappai, 53 anos, é jornalista, historiador e pesquisador da imigração sarda para o Brasil. Autor do Livro "A ILHA QUE ATRAVESSOU O MAR", em fase de publicação.

Crônicas do Sardo Mineiro

OS MOINHOS DE QUIXOTE

O fim de tudo é certamente a vida que encerra. Assemelha-se ao fim do mundo, o prenúncio da morte para o indivíduo, um estado completo de solidão na vastidão deste mundo. Morrer é um ato essencialmente solitário e não precisa ser paciente terminal. Não há desamparo maior que chegar ao fim da trilha e terminar a vista sobre um grande abismo. Neste, não há quaisquer vistas que orientem o novo rumo ou mesmo se há nova chance; se é de fato o fim do caminho ou se ainda teremos forças para enfrentar. Mas a biologia caminha inversa à sanidade dos melhores planos. E então, um cinquentenário se encontra frente a frente no desalento do último enredo; na leitura dos olhares perdidos e minguados dos anciãos recolhidos no leito dos hospitais. Quantas histórias magníficas deixarão de ser contadas ou, em muito breve, estarão irremediavelmente dispersadas e esquecidas! Não há lógica para o arquivista pesquisador ou ao escriba, na matéria prima lapidada no tempo e dilapidada pelo próprio senhor tempo. Olho para o abismo e o abismo olha para mim, buscando uma decifração da vida e morte. Que sentido faz tudo isto agora? Desejaria conversar francamente com meu pai, hoje com 83 anos, das descobertas que não tive tempo de relatar, das aventuras que empreendi desde que saí moleque de casa ou mesmo jogar palavras ao vento no alpendre, como velhos amigos, pai e filho curtidos pelo tempo. Mas não tive tempo, porque o Alzheimer chegou primeiro.

            A química da morte superou a química da vida, levando a memória de tudo. O baú da família carunchou os porquês essenciais da família, aniquilando a identidade ocultada ou pouco vivida, como que enterrando finalmente nossas raízes imigrantes. Química da morte, “figli di puttana”, que arrasta partes importantes de acervo das famílias, expostas ali à minha frente, como manchas no cérebro numa imagem da ressonância magnética. O cérebro morre rapidamente, juntamente com as palavras e sua lógica mundana, como despedida em vida.

- Como é o nome daquela mulher que fica lá em casa?!, - Perguntou meu pai, certa vez, no início da doença. 

- É sua esposa meu pai, a minha mãe. O nome dela é Lêda. Não esquece, porque ela vai ficar brava... – Brinquei, achando graça do inusitado.

E surpreendentemente, zeloso que deveria ser com os detalhes da paternidade de quatro filhos e a manutenção da casa, pediu olhando fortuitamente para os lados, como investigando com os olhos a localização da companheira de tantas décadas.

- Anota num papel e coloca no meu bolso, porque não posso esquecer seu nome. – Apressou meu pai em consertar o terrível lapso, desculpando-se com riso amarelo....

E passado apenas dois anos do trágico avanço do Alzheimer, minha mãe também ingressou na doença, aos 83 anos. Nunca minha Certidão de Nascimento sofreu tantas alterações. Não sei se chamo José, Antônio ou Batista, ora apenas “menino”, mas atendo prontamente qualquer nome que venha em minha direção. Perdi as forças para corrigir, porque a repetição do erro é torturante, tanto quanto o fantasma que agora nos ronda. As argumentações ficaram tênues, sem expressão, como resvaladas para o nada e, assim, emudeci com eles. Uma semana com meus pais é a pura expressão de parte decadente de mim. Sou como alicerce da construção carcomida por ondas salobras, expondo esqueletos nas colunas herdadas, que acreditava serem de aço. Deparei-me com minhas fragilidades, falhas e ausências. Deveria tê-los incitado à lógica da vida, ao raciocínio das letras e na dinâmica de novas experiências. Cuidava de minha profissão e família à medida que a doença se manifestava há quase 500 km de distância entre cidades, que separa o sul de Minas com a Zona da Mata mineira. Tenho nos braços hoje sua primeira bisneta, o ícone da renovação da vida, que jamais reconhecerão. E neste cenário familiar frágil, encontro com a “química da morte”, que me leva a digladiar com Planos de Saúde e Ouvidorias apelando-os na “obrigação de fazer”, as drogas “tarja preta” para postergar a vida quase sem vida e angústia na falta de ambulância para o transporte emergencial. E para complicar meus pensamentos, uma tragédia de grande extensão há poucos anos deu novo rumo na história familiar, que ainda enfrentamos. E foi assim que comecei a pesquisar o Alzheimer e sinto que devo compartilhar singelamente o que descobri.

Descobri que não existem receitas ou chás para envelhecer saudável. Também que os traumas e as dores foram feitos para serem enfrentados, chorados ou compartilhados, a seu tempo, ainda em campo de batalha. Compreendi finalmente que o homem é um ser social, como foi enfatizado por tantos filósofos. Não podemos nos isolar, jamais. Que minha presunção, orgulho ou vaidade não servirá para nada, a não ser distanciar as pessoas. Por outro lado, a amizade, o sorriso e a caridade rejuvenesce o coração. Devo respeitar a história e fragilidade do outro, ser amigo. Que nunca é tarde para aprender qualquer coisa; é preciso reinventar-se. A “solidão dos velhos” pode nos matar. A sociedade ocidental criou padrões, como a idolatria à juventude e ao corpo “sarado”, repetindo antigos gregos, criando quase ojeriza àqueles para o qual o tempo passou. Aprendemos a associar o idoso à doença, problemas e limitações, peso para a sociedade e a previdência social. Caminhamos para um país velho, sem estrutura e organização mental para esta realidade. De qualquer forma, busque o ambiente que lhe agrade e importe com você. Sou agente de minha realidade. E por toda experiência passada, agradeço a graça de tê-las vivido.

A figura do “zumbi” sem cérebro, não interessa senão à indústria do cinema ou aos laboratórios farmacêuticos. O ato de viver é um constante reinventar da vida, longe de ser Zumbi. Não devo reclamar do que não posso fazer, mas simplesmente fazer. Não posso isolar do mundo, porque não terei ninguém para compartilhar ou ouvir minhas descobertas. Vou trabalhar sempre, pois os frutos colhidos pelo meu pai são amargos, por ter aposentado cedo aos 52 anos e ter trancado num apartamento, com medo de um mundo violento e perigoso. É inevitável ficar velho, mas quando deixamos de sonhar e nos isolamos, seja em qualquer idade, iniciamos a própria morte. Geneticamente carrego o Alzheimer, mas posso mudar isto, aprendendo uma nova língua, mudando temporariamente para outro país, aprendendo com outra cultura e forçando o cérebro a novos comandos. Virei vegetariano. Bebo água de nascentes. Aprecio a natureza. Tenho hoje a idade que meu pai aposentou e não posso seguir o mesmo padrão comportamental. Não pretendo ser jovem novamente, porque cronologicamente isto é impossível, mas posso imprimir “juventude” nos meus dias. Isto significa renovar os pensamentos, rever conceitos e paradigmas e realizar atividades diferentes. A cada dia, tenho a felicidade e o presente de recomeçar novos projetos e reinventar ideias. E quando Dom Quixote de La Mancha começar a ver perigosos gigantes nos moinhos de vento, certamente lembrar-me-ei da resposta de minha sogra “Dona Marta”, numa manhã de domingo, no quintal de casa, quando perguntei:

- Qual o seu segredo para envelhecer com saúde?

- Não preocupe com isto! -  Sábias palavras de uma alma caridosa, de quem enfrentou muitas batalhas, cativa com cantorias e recita trovas aos 88 anos.



_______________________________________________________________            José Capaz Dutra Cappai, 53 anos, é jornalista, historiador e pesquisador da imigração sarda para o Brasil. Autor do Livro "A ILHA QUE ATRAVESSOU O MAR", em fase de publicação.

Crônicas do Sardo Mineiro

A ETERNIDADE DESTE INSTANTE

            Este instante de fraquíssimos segundos,
            Traz o peso de uma eternidade.
            É uma dádiva respirar saudável neste instante.
            Ter sua consciência plena, terna e paciente.

            No relance, as palavras que salvariam vidas.
            A tranquilidade que evitaria acidentes.
            A colocação das palavras que pouparia dores.
            Esta fluidez dócil do espírito que busca a paz.

            E somente neste instante de gratidão.
Como oração, busco indelével o equilíbrio.
            Único, intenso, entrega verdadeira ao senhor tempo,

            Porque, o cinquentenário não tem pressa, apenas poesia.



_______________________________________________________________           José Capaz Dutra Cappai, 53 anos, é jornalista, historiador e pesquisador da imigração sarda para o Brasil. Autor do Livro "A ILHA QUE ATRAVESSOU O MAR", em fase de publicação.

Crônicas do Sardo Mineiro

UMA ANALOGIA INEVITÁVEL
                                      Imigração na atualidade.

A rede virtual se assemelha ao mundo real, mesclam fragmentos históricos, armazena e veicula percepções de tal forma que funde com a própria realidade. O “ouro verde” do século XIX agora é substituído pelo ouro moderno, a tão disputada informação. Muitos pretendem “fazer a América” neste ambiente novo. Mas é preciso saber “navegar”, atravessar o grande “oceano” que agora distingue os indivíduos conectados daqueles não conectados. Vivemos uma nova “monocultura”, que se mescla perigosamente ao mundo real globalizado. Nasce uma cultura planificada, sem fronteiras e, intencionalmente, com poucas regras. Tornamos, assim como nossos ancestrais imigrantes em Minas, internautas. Um novo “laboratório de gentes” se formou; agora em patamares e consequências inimagináveis.

Os rastros “imigratórios”, aqui e acolá, são “aparentemente” deletados, mas uma lista de desejos e de indesejáveis já se formou. O sistema sabe tudo de você, porque investiu para que estivesse com você. Mapearam seu “Stato di famiglia”. Agem como uma “Superintendência de Imigração”, coordenando, selecionando e registrando fluxos de ideias e mentes. Formou hospedarias, colônias e grupos. Alimenta as diferenças, se mostra solícito a todos, tudo a título da liberdade de expressão. O “ouro moderno” movimenta nossas vidas cotidianas, bancos, bolsa de valores, mercado de ações, nações, opiniões, com forte apelo motivacional. A moderna oligarquia mundial, com gigantesco poder de transformação, manipula este mundo virtual. Isto será sempre negado. É uma rede de “malha fina”, onde nada passa despercebido.

No ambiente virtual, a sensação é a de “ser imigrante”, ainda que não percebida ou admitida, a identidade “roubada”. A teoria do sardo Gramsci, com os conceitos de “hegemonia cultural”, é perfeita na definição desta “terra virtual”. O exemplo é bem atual. A oligarquia não se vale da violência para governar, mas sim de ferramentas culturais e ideológicas, que constroem o consentimento geral. A “hipnotização” dos internautas ocorre como no passado da colonização de Minas, sedução e falsa propaganda, que lhe rouba o tempo e os sonhos. Nas ruas, os “imigrantes” de hoje digitam avidamente seus celulares. São milhares de conectados, quase incomunicáveis no mundo real. A ordem é navegar. O celular, como as antigas ferramentas agrícolas, é indispensável ao pretenso moderno, ao entrosamento e ao posicionamento social. A ideia é sugerir um território “livre”, sem fronteiras. Nele é permitido entrar e sair a qualquer hora. Não se iluda, estamos num ambiente hipermonitorado. Maquinas praticamente “pensam” e registram os menores movimentos. Tudo é traduzido em estatísticas, tornando previsíveis os comportamentos, gostos e tendências. Subliminarmente, dia a dia, ocorre a desconstrução do indivíduo e das famílias.


Este internauta é conduzido à superficialidade, indivíduo sem fronteiras e sem raízes, um receptáculo de emoções dúbias, um mero prisioneiro, sem identidade. Nada difere daquele imigrante real do passado, que sequer deixou documentos ou foi sepultado como indigente. Muitas nações estarão em perigo entre os dois mundos, como reflexo de benesses e maldições em tempo real. A educação virtual é arrebatadora como uma onda, subtendida, informal e superficial. Quanto maior a extensão deste saber virtual, de rápido consumo, menor a visão em profundidade do seu ávido consumidor. E a navegação não pode parar; é frequentemente medida e comemorada por sua oligarquia. Nos consultórios médicos já chegam os primeiros náufragos doentes, “viciados” na navegação, são indivíduos sem fronteira e sem identidade. E mais uma vez, os imigrantes estarão abandonados e doentes nesta terra artificial, fazendo parte das novas estatísticas...


Crônicas do Sardo Mineiro

Vida de pastores

Na noite escura e distante do tempo, toda percepção é falha e mouca, mas os eventos fortes sobrevivem incólumes e tornam-se lendas adoráveis. Foi assim na aldeia feudal de Villasalto, no distante ano de 1240, quando a grande maioria das terras da ilha da Sardenha pertencia ao Reino de Arborea. A pequena aldeia possuia poucas casas, todas de pedras e acentuadas por ruas calçadas de pedras, iluminadas por archotes com óleo vegetal. Sua população não excedia a 500 residentes, que vivia da rudimentar agricultura, criação de cabras e domesticação de equinos e muares. A união de famílias fortes e bem articuladas no poder se faz presente neste tempo distante, como em outras partes do velho mundo. E não foi diferente nesta aldeia feudal no sul da ilha, incrustrada no meio do mediterrâneo. Giovanni de Bas Serra, rico banqueiro da época, entregara sua filha Vera Cappai a Mariano II, Rei da Ilha, unindo duas famílias abastardas que dariam poder e sucessão ao trono por mais de 300 anos. Com a união das famílias, as “Contas Villasalto Muravera” estavam nas mãos da “potente famiglia Cappai”, estendendo seu poder das terras altas de Villasalto, na região montanhosa de Gerrei, próximo ao Pico de Gennargentu até as terras baixas do litoral da antiga Muravera e atingindo as terras férteis do Rio Flumendosa. O casamento real e o foco no pagamento de impostos iriam alimentar conspirações, tão afins ao poder. À margem desta história real, o isolamento geográfico, a escassez de recursos e as doenças palustres dizimavam sem dó, seja quem for e onde estivesse. Pastores, reis e rainhas desta dinastia, rudes e valentes, tombariam pela “peste”.

O vento implacável assolava as oliveiras e plantas silvestres que insistiam em fixar no terreno rochoso, serpenteadas por odores do alecrim e tomilho que invadia as ruas semidesertas da aldeia. E dele ecoaria as cantigas dos sinos de cabras distantes, pastejando desinteressada e ritualmente nos vãos de rochas alvas, como tivesse a ninar os mais severos pensamentos. E certamente seria um bom condutor da melancolia das Launeddas de alguns pastores, que cobriria seu turno com o treino ou virtuose de suas flautas. Desta laboriosa excursão do “giorno di lavoro”, pastoreando o rebanho de cabras, culminaria no encantamento dos eventuais “Ballo sardo”, quando os universos masculinos e femininos estariam em efusivas danças na pequena praça. As Launeddas se juntarão aos tambores, chocalhos e ao canto polifônico dos pastores, que concorriam em busca dos quão potentes e melodiosos conseguiriam ser. Os homens estarão com suas melhores roupas de pele, barbas aparadas e bem dispostos ao “vino, formaggio e carni” e as mulheres em exuberantes vestidos coloridos e lenços bordados nas cabeças. E tudo que o vento leva, haverá sempre o odor da fumaça de suas fogueiras, ora fazendo o café e ora preparando seus intermináveis assados de “vittelo, pecoras, maiales e cinghiale”. Deste ultimo, o vento propaga o som de fortes estampidos na caça dos javalis, tão comum na densa floresta que circundava o vale. E toda esta cultura contada pelos ventos, simbolizada pelo pastoreio, fogueira, caça, launeddas, a dança e o canto, estão contadas nos afrescos e pinturas rupestres nas “Domus de Janas”, menires e rochas primitivas. Escapavam-lhes a dispersão aleatória do vento, enquanto respeitavam os registros nas rochas, como se as fadas realmente o fizessem.

 “Tzio” saiu cedo, antes do amanhecer na aldeia, para pastorear. O apelido lhe caia bem, porquanto era o tio solteirão, livre em suas convicções e grotesco em sua performance alpina. Suas roupas vinham das peles e lãs de seu rebanho. O calçado rústico e eficiente acompanhava a polaina de couro escuro, grosseiro e bem curtido, que o protegia das serpentes mais sorrateiras. A calça, mais que esconder as pernas e as partes pudicas, protegia de espinhos da severa vegetação. Um saiote de pele é sobreposto às calças, herança dos antigos sumérios e do império romano, aumentando-lhe a resistência. Sobrepondo a uma camisa de lã alva, presenteada pelas artesãs da família, seguia o colete e um turbante de pele, dando-lhe uma aparência rude e exuberante, impondo profundo respeito. Vestimenta que se complementava com a longa espingarda, que o acompanhava sempre, juntamente com o Coltello bem afiado. Após longo e rigoroso inverno, cuja neve deixou inacessíveis e impróprias várias áreas de pastejo, Tzio teria que andar por vários meses com seu rebanho. Não levava nada, a não ser seu conhecimento e experiência, juntamente com seus irmãos e outros pastores, que se apartariam em caminhos distintos e equidistantes, guiados pelos ventos e sons. As fortes mulheres aldeãs, “madonnas e ragazzas”, estavam de pé para ultima despedida antes de partirem, arremessando da boca fortes vapores na madrugada gelada, entremeada pelas falas tropeçadas e confusas, e adiante, dos gritos de despedidas.

Na ausência das mulheres, rodeado de ovelhas de cabras e poucos víveres, os pastores sobreviveriam ao final do inverno intenso. Procurariam para suas ovelhas um local com boa pastagem. Acercariam de suas “pinettas”, pequenas construções de pedra e cobertura de palhas em pontos estratégicos de outras temporadas e excursões. Feitas de chão batido e bem calafetadas, era equipada com um fogão de pedras com chaminé, onde seriam preparadas as refeições, geralmente composta de carne de caça, aves ou javalis, leite e queijo e, eventualmente, vinho ou grappa. Nas “pinettas” ao redor do fogo, tocando launeddas, cantariam loucamente, divertiriam com as aventuras do dia, curariam as feridas, jogariam “morra”, afiariam os coltellos e contariam piadas toscas e mundanas, longe do cerceamento das mulheres, assim por meses a fio. Da turma desta temporada, estava Carlo, Giacomo, Salvatore, Giuseppe, Pietro, Francesco, Giorgio, Efisio, Antônio e Gaspare, num total de dez pastores. O alvo das chacotas, “scherzo”, era Carlo e Giorgio. O primeiro ragazzo motivado pela fase “tropo caldo” de sua mocidade, sem namorada e sempre cercado de uma cabra em particular. O segundo inexperiente com a caça, ao esquivar-se de um javali enfurecido, apavorado em dar cabo do nervoso animal que partira sobre ele, deu um tiro no próprio pé. Ambos sobreviveram às brincadeiras dos pastores, que se divertiram na lida árdua e longa do campo. Alguns incidentes como ataque de raposas, ovelha perdida, cabra envenenada por uma nova erva digerida, ataque de serpente e tentativa de roubo motivariam as conversas. E toda conversa não deixaria o grupo tão revoltoso quanto à questão administrativa regional, quando tiveram que dar uma grande volta com o rebanho cansado para retomar antigo e costumeiro caminho, devido a uma ponte caída sobre o caudaloso rio.

Com tantos impostos que arrecadam dos agricultores e criadores, o que fazem pelo “paese” e o “popolo sardo”, a resposta é simples “una mierda di niente”. Nada produzem, apenas cobram. Não conservam os caminhos, não controlam as queimadas, não preservam as pontes, não combate os roubos frequentes nos rebanhos; mas sabem cobrar impostos. Retornando após meses ao relento, pastoreando e produzindo queijos e carne salgada, os pastores deveriam destinar parte da produção ou negociações ao feudo, que por sua vez repassaria parte ao Regno d’Arborea, numa ida sem volta. Mas havia uma esperança, após o casamento de Vera Cappai, filha do banqueiro, com o Rei Mariano II, o aragonês valente e poderoso de toda ilha. A união era promissora e poderia mudar toda história, em favor dos produtores rurais da pequena Villasalto e fariam uma belíssima história. Tzio trazia dentro de si a ambiguidade de sua atual postura, mantinha-se solteiro sem maiores preocupações ou casava-se, tendo que ambicionar-se a partir de então com a produção e os maledettos impostos que tiravam o sono dos casados. Mas quando pensava em Marianna, seus olhos brilhavam e toda preocupação era levada pelos ventos, embalada pelos sinos angelicais de um amor sem igual.

As pastagens alcançadas em onze dias de caminhada ainda estavam dentro das terras cedidas pelo Reino aos pastores. Não havia cercas ou marcos, mas a palavra, armas e sardos bravos para defendê-la. Se não fossem contestadas, poderiam ser usadas sistematicamente pelos pastores, até que tornassem posse e fossem cedidas pelo Rei, logicamente à custa de impostos. Mas se por mudança de humor ou preferência do Reino, as terras de divisa fossem cedidas a outro sem consulta da posse precária, pendengas seriam criadas e arrastariam por anos em brigas e chumbo. Visto que o prejuízo material e as mortes não as compensaria, uma das partes se retirava do pleito. Mas o espírito sardo é renitente e muitas terras foram conquistadas na valentia. Não obstante, a quantidade de terras media a valentia e o poder de seu dono. E quanto mais próximas de aldeias, maior valor teria. O fato de encontrarem a Pinetta de pé, organizada como deixada em períodos passados, era bom sinal de que não haveria confrontos ou contestações. Passariam por menires, mas estes não seriam marcos de posse, porquanto sabiam que eram primitivas manifestações de antigos druidas à Terra Madre, sábios místicos da antiguidade que equilibrava a energia do local. Veriam antigos Nuraghes de pedras e beneficiariam até dos poços d’água com laborioso acabamento lítico, mas estes também foram feitos milhares de anos atrás por antigas civilizações. Havia respeito dos pastores por estas obras antigas, jamais retirariam suas pedras para construir suas Pinettas, por mais fácil e perto que estivessem. Temiam antigas maldições.

E, em meio a estas questões de terra, um desgarrado macho espetacular e viril reproduzisse com suas cabras, poderia ser uma benção na melhoria do rebanho ou mesmo uma desgraça, caso o proprietário a reclamasse. Geralmente, parte da cria seria entregue ao dono, caso se apresentasse. As cabras eram bem distinguidas no rebanho, com sinos peculiares a cada dono e artesão; assim como os Coltellos, que uma vez vistos, saberia de que tribo ou região era a cabra ou pastor. Detalhes nas vestimentas também tinham este papel de identificação, o que poderia manter afastada uns do outros, dada a belicosidade e intensa ignorância deste ou daquele grupo. A mudança brusca do clima mediterrâneo, entre a neve e calor intensos em períodos nem sempre bem determinados, dava uma característica bipolar a estes grotescos pastores. Poderia passar do riso à agressão por simples mal entendido, por isto conversavam pouco com estranhos, como imperativo demonstrar do seu espaço e território. Mas com todo rigor do clima, constituía um dedicado e bom amigo. E em silêncio, agachado e observando sistematicamente o rebanho, cortava com seu inseparável Coltello pedaços de queijo bem curado e nacos de carne seca, mastigando-o profundamente em vigia aos próprios pensamentos...


Passados os meses, o que se via ao longe se assemelhava à visão grotesca da chegada do incrível exército de náufragos, levados pelo sabor dos ventos de outrora. Barbas imensas, cheiro de suor, grandes cargas nos baús nos lombos dos burros, o rebanho cabisbaixo e determinado a chegar à aldeia, os cães a latirem com força encorajada pela visão da aldeia, os pastores arrastando suas carcaças de cansados, enervados pelos pensamentos mais infames. Os enamorados na suspeita de que foram esquecidos e trocados por outrem. Os casados na suspeita de uma traição, depois de vários meses distantes. E tudo se desfazia, como num passe de mágica, com a primeira sensação do retorno, a volúpia do olhar, a anca desperta a rebolar na festa da chegada, o sorriso branco na face castigada pelo sol, os afagos e beijos desejosos, as crianças chorando de saudades e toda aldeia em festa. A ansiedade foi recíproca, cada qual cuidando de seus afazeres. A fartura estava garantida, enquanto os pastores produziam carne e queijos em terras distantes, as mulheres e crianças cuidavam das casas, teares e pomares. Ambos tinham histórias para contar, reunidas e compartilhadas com os ventos de Villasalto, nas terras altas de Gerrei...




Crônicas do Sardo Mineiro

RITUAL NO ALÉM-MAR...
                José Capaz – 25/01/2014


Ao mar, sonhos perdidos numa terra que fica,
Desaparecendo atrás das vagas ao som do vapor,
Inclemente, determinado, algoz e repleto de vida mecânica.
Sonhos em turbilhão, espremidos numa “pátria” ambulante.
Aos filhos dos sonhos, a colheita certa da terra perdida,
Aos filhos dos sonhos, a promessa da colheita farta e certa.
Oh! América, que dos véus brancos nos remetem a seus frutos, o café,
Seus “Nuraghes” são como torres verdes, desdobrando serras,
E suas pedras de divisas sulcam fronteiras entre homens e lavouras,
Em grande extensão de terras e lutas...


O canto da harmônica veio da nave até a serra “di mio lavoro”,
Regurgita velhos pensares no acalento de uma nova alegria,
Candura e vaga lembrança, levada ao vento como a primavera.
E quando acordar deste tempo, sem dores lombares, sem anseios,
Estarei, não de volta à nave e nem ao passado da Ilha Perdida,
Mas estarei impregnado na semente, no solo e no ar desta terra,
Imigrante sardo, enterrado em terras distantes, filho suado e cansado,
Agricultor, amante, pai, escultor, carpinteiro, pedreiro e espírito.
E de tudo que foi e partiu, a história se mistura a tantas outras,
História de fole, acordeon de poesia e contos, do ir e vir, repetir;
Constrói, destrói, refaz, anima e repensa esta pátria bendita.


Além-Mar, Além-Terra, Além-Vida,
Ninguém há de morrer em vão nesta Terra de todos,
O trabalho é uma vida, completa outro, uma simbiose sem fim,
Imigrante nascemos, quando aqui aportamos,
Imigrante seremos, quando daqui aportamos.
E esta grande nave, errante no espaço de ondas, segue um rumo,
No instante em que quatro mouros nos observam:
A família que nos acompanha,
O pensamento e suas estações passageiras,
A fé em dias melhores e
O vazio de estar em uma terra distante.
E, diante deste “mistério nurágico”, se perpetua o rito à ancestralidade,

Não há documentos; apenas a dispersa, intrigante e tênue história...



Crônicas do Sardo Mineiro

Pêndulo sardo
                          José Capaz – 10/12/2015


Gira o mundo, gira terra e mares,
O tempo inclemente de meus dias gira incessante.
Que será deste tempo passado, devorado por este engenho?
Mundo pêndulo, que será do tempo porvir?

Gira a mente, gira as ideias e anseios, pombas!
Devo pensar no girar dos dias e sua eteriedade radiestésica.
Haverá um equilíbrio cósmico, onde sou sua célula?
E ao pó que retornarei, em turbilhão, nesta fatalidade cíclica!

Gira a vida, a semente que nasce, morre e renasce persistente.
Draga para si os esquecidos, ato falho, porque o Criador nos protege.
A grande civilização de resetados, velhos e esquecidos, deste mundo ancião.
A roda da vida gira e recria em colapsos e colisões, em nome da liberdade.

Gira as ondas e marolas arrebentam nas rochas da Sardenha.
Alegre coração envolto a fragmentos e poeira do tempo.
Gira a chave do tempo, o segredo deste espírito sem fronteiras,
Este pequeno átomo sobrevivente traz sentido resiliente a vida.

Gira prazerosamente gerações e gerações na mente cansada e confusa.
Anseio pela comunhão dos dias, ideias, ondas, rochas e cacos.
Desejo arqueologicamente meu espírito druida na terra dos Nuraghes,

Porque está escrito, pêndulo sardo, um dia o filho a casa retorna...