O PESO DO TEMPO
Giuseppe,
o sardo, era um bom homem. Dentro do possível, pagava seus impostos em dia. Bom
amigo e protetor de sua família. Bem prezado em sua comunidade, mas a situação
de seu país natal o forçou à imigração tardia. Desfez de seus bens e despediu
de amigos e parentes. Aos 45 anos, quando boa parte dos agricultores de sua
querida terra buscava a tranquilidade da rotina, um turbilhão de ideias e
provocações abateu sobre sua provinciana mente. Trazia na bagagem a esposa e
seis pequenos filhos, o que aumentava demasiadamente a responsabilidade de sua
decisão. Deixaria para trás as lembranças de sua terra, a casa que construiu
com dificuldades, a criação que dispensara tantos cuidados e suas prestimosas
ferramentas de trabalho. Seria mais um imigrante a “fazer a América”, sem
pátria, sem identidade e sem lembranças. O pouco que trazia, além das roupas
melhores no corpo, era sua questionada coragem. Este impulso de loucura que
levou a entrar num navio com toda família, em busca de tempos melhores, numa
terra que nunca pisara ou conhecera. Sem identidade, portando apenas o poder
simplório da palavra de um homem simples, desguarnecido de armas ou
argumentações. Não teria a quem reclamar, exceto chorar solitário com seus
frequentes monólogos, protegendo a esposa das preocupações que eram só suas.
Vida de imigrante, vida de abastardos. Por mais enevoado que sejam os tempos
vindouros, temperava-os com seus sonhos quixotescos, buscando a “ilha” que
governaria, parida toda em sua mente.
Há
decisões na vida que são irreversíveis, jamais retornam ao sossego de suas
origens. Uma delas é certamente estar vivo. Não escolhemos vir a este mundo de
loucuras, o que torna incondicional e imperativo o fato que ficaremos velhos.
Não temos opções, exceto o fato que podemos mudar de caminho, reciclar
condições e ideias, como despojado e louco imigrante. Giuseppe contorcia de
saudades em seus últimos dias, porque enquanto buscava sua ilha de fartura e
prosperidade, tornou-se de fato uma “ilha”, enclausurado em si mesmo. Afinal,
não são assim os velhos de qualquer lugar, isolados, sonhadores, amargos ou
cheio de bravatas por contar? Seus filhos casaram, formaram famílias distantes
e não vieram visitar. As reclamações faziam parte de seus dias, como as dores
da sua espicaçada coluna. A esposa fora
enterrada há alguns anos atrás a centenas de quilômetros, deixando
implacavelmente a saudade até de suas reclamações, destas que o fizeram quebrar
as amarras de seu tempo e desbravar terras além mar. E pensando assim, viu que
as reclamações são combustíveis dos velhos, não aquelas que os fazem ranzinzas,
mas que os lança adiante e em novas experiências. Dispensaria a “Acabadora”. No fundo de sua alma “ilha”,
sabia que o descontentamento é que ditava ritmo à sua vida, a toda sua geração
e família. E isto seria a maior herança do seu tempo, a sopa primordial que
correria na veia de seus sucessores, tornando-os capaz de enfrentar e desafiar
o mundo. A coluna pode vergar e ameaçar a ruir, mas imigrante que se preza não
deita para morrer, morre em pé, sustentado por seus sonhos, eterniza. E assim
deve ter sido...
_______________________________________________________________ * José Capaz Dutra Cappai, 53 anos, é jornalista, historiador e pesquisador da imigração sarda para o Brasil. Autor do Livro "A ILHA QUE ATRAVESSOU O MAR", em fase de publicação.
_______________________________________________________________ * José Capaz Dutra Cappai, 53 anos, é jornalista, historiador e pesquisador da imigração sarda para o Brasil. Autor do Livro "A ILHA QUE ATRAVESSOU O MAR", em fase de publicação.
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