terça-feira, 17 de novembro de 2015

A nova Geração de Descendentes Sardos

Como descendente de imigrantes sardos, carrego comigo uma alma altruísta, bem direcionada pelos ensinamentos de meu pai. Gostamos de ajudar e sabemos dividir e estas características nortearam a escolha das profissões na família. Formei nas áreas de humanas, atuando como Técnico em Agropecuária, Extensionista, Gestor Ambiental, Jornalista e Historiador. Atuar na área de humanas foi o tempero que a vida me reservou, trazendo nas entrelinhas do que aprendi, muitas nuances e vivências de meus antepassados. Gosto do ambiente rural. Meus antepassados sardos viveram e contribuíram com suas vidas para o país, mas nos deixou a dignidade de andar de cabeças erguidas, do sono tranquilo e da luta por boas causas. Esta é talvez a maior das heranças...

É fato que nos realizamos com as conquistas dos filhos. Hoje tenho o prazer de acompanhar minha filha Giovanna Kersul Cappai  desenvolvendo trabalho acadêmico no curso de Direito analisando a eficácia da comunicação rural na orientação jurídica ambiental dos produtores rurais na região do sul de Minas. Também alegro ao ver o projeto de minha filha Gizelle Kersul Cappai no curso de Engenharia Civil, ser aprovado em primeiro lugar no Estado de Minas Gerais pela Sociedade Mineira de Engenharia - SME, destacando-se entre 56 projetos apresentados, cuja proposta transforma rejeitos da mineração de quartzito em casas populares.

As sementes plantadas pelos descendentes são testemunhas visíveis que os sardos são vitoriosos além das fronteiras da ilha (A ILHA REALMENTE ATRAVESSOU O MAR) e, na luta pela sobrevivência, entregam-se visceralmente ao trabalho de causas sociais. Além da rigidez, da melancolia e a constante cobrança interior, características típicas da raça mediterrânea, aprendemos a viver com alteridade. A natureza do bem é gerar frutos do bem...

SARDOS PER SEMPRE.




quinta-feira, 16 de julho de 2015

Livro: A ILHA QUE ATRAVESSOU O MAR.


Em breve estarei lançando o meu primeiro livro sobre a imigração dos sardos em Minas Gerais. Estou na fase de contatos com as Editoras. O valor do livro está sendo analisado a R$ 35,00. Será disponibilizado também na versão Ebook, a valor diferenciado para este formato.  Possui 216 páginas.

O livro "A ILHA QUE ATRAVESSOU O MAR" encerra o trabalho de pesquisa jornalística de quase três anos que envolve parte da Família Cappai, as origens e a rara imigração dos sardos em 1897; bem como uma pesquisa histórica na Ilha da Sardenha, berço de meus bisnonnos Giuseppe Cappai e Maria Annica Gessa e meu nonno Raffaele Cappai.

Neste trabalho apresento as origens do sobrenome, sugestões para pesquisar a genealogia das famílias, dicas para reconhecimento da cidadania italiana e a importância da busca de suas origens. Certamente a "viagem" mais importante do ser humano no seu autoconhecimento é o estudo da genealogia. Conhecer suas raízes é se encontrar como ser humano no mundo. Seja descendente de nobres ou plebeus, banqueiros, comerciantes ou rudes pastores de cabras, todos têm histórias para contar. A ilha atravessou o mar, porque a alma do imigrante sardo é imortal, profundamente arraigada na sua gente. O popolo sardo rebrota nas estações, na sazonalidade e fertilidade das terras brasileiras e sua história agora tem motivos para frutificar...




RESENHA

Uma história além-mar, que envolve a imigração de uma família de sardos a Minas Gerais de 1897. Um momento dramático na crise econômica que abateu sobre todo continente europeu; a família feudal Cappai no Reino de Arborea; Reis e rainha da Sardenha; pastores sardos e, incontinenti, o sonho de dias melhores fora do paraíso, num lugar chamado “América”. Os poucos sardos que vieram como “burros de carga” para Minas Gerais, a maioria retornou para a ilha no Mediterrâneo. O abandono das raízes dá início a uma vida de desencontros. A família de Giuseppe e Maria Annica permaneceu em solo mineiro, deixando como herança a Síndrome dos Imigrantes e sua história dispersa. Este é o início da descoberta! Boa parte de nossos sentidos, percepções e reações emotivas, a predisposição do organismo às doenças e a manifestação de patologias mais arraigadas na mente podem ter respostas na genealogia. Quem escreve e junta os cacos é o neto descendente, o jornalista e historiador mineiro José Capaz Dutra Cappai, que pesquisa a história adormecida e fecunda nos documentos históricos. Seus bisnonnos pensavam retornar ao paraíso Sardenha, mas algo impediu a volta. Diante das descobertas, o acaso o leva a reverenciar seus ancestrais; despertando-lhe a saudade de uma ilha que nunca conheceu...

Autor:  José Capaz Dutra Cappai
Contato:  italianocapaz@gmail.com 


quarta-feira, 6 de maio de 2015

Arquivo Público Mineiro - APM / BH

O Memorial do Imigrante encontra-se no site do Arquivo Público Mineiro – APM, sede em Belo Horizonte. Nele podem ser localizados indivíduos que deram entrada na Hospedaria Horta Barbosa, de Juiz de Fora, Imigrantes Italianos e outros em Minas Gerais, ou pessoas que foram registradas nos órgãos de fiscalização de estrangeiros em Minas Gerais no período da imigração. 


Arquivo Público do Estado de São Paulo

O Memorial do Imigrante encontra-se no site do Arquivo Público do Estado, nele podem ser localizados indivíduos que desembarcaram no Porto de Santos, os que deram entrada na Hospedaria de Imigrantes entre 1887 e 1978, ou pessoas que foram registradas nos órgãos de fiscalização de estrangeiros em São Paulo entre os anos de 1939 e 1984. 

sábado, 18 de abril de 2015

Sardo per Sempre.

Ter sangue sardo é...

Cultivar a ilha paraíso no coração, sem fazer da alma uma ilha.
E mesmo cruzando extensos mares, carregar sua história milenar.
É cantar cappela e ecoar seus sentimentos ao longe, abraçando o mundo.
Numa mística forma que envolve todas as estações e sentidos.
É ser forte e galgar alturas como muflones nos rochedos.
Ter a paciência de pastores e monges a vigiar seu rebanho.
É não se entregar fácil aos desafios de seus algozes, na nobreza de javalis.

Ser família, como profissão de fé diária.
Seguir procissões e ritos, pedir a benção do nonno nas árduas campanhas.
É não ceder ao jogo da vida, como pedras que se moldam ao vento inclemente.
Sentir-se parte da natureza, do cosmos às profundezas do ser, colhendo uvas.
Ter adiante das veredas, a presença de São Miguel Arcanjo.
Agir no tempo certo, calmo como a corticeira que se deixa cortar e servir.
Sentir-se pleno aos pés das montanhas, com Gennargentu a nos sondar.

É ter no vino, formaggio di pecora, pane curasao, uma conexão celestial.
Viajar pela gastronomia, como el trenino contornando serras e mar de rara beleza.
Cultivar a arte na madeira, na cortiça e na rocha, gravando-a para a posteridade.
Guardar n’alma, mais de sete mil torres de enigmática beleza, uma parole sem fim.
Desfazer-se das máscaras e do sentir Mamuthones, ao som dos sinos e ventos.
Na manhã seguinte, renascer livre e forte como um histórico Giganti di Prama.
É dizer Io sono Sardo, cujas raízes nurágicas se perdem nas brumas do tempo.

Quando vir a solidão, invade n’alma o canto de launeddas ao vento.
Ou grite e ouça seu eco nas montanhas, como puro manifesto da liberdade.
É falar de política, no ir e vir de ideias gramscianas, de um mundo manipulado e perdido.
Tomar uma Ichnusa, quando todos os argumentos falharem na vagueza do ser.
Ter odores e sabores dos campos floridos e entender a neve, quando tudo adormecer.
Acordar com o dia em brumas na Pinnetta, rodeado de cabras e pensamentos.
É tudo sonhar, sem nunca ter estado no lugar, mas viajar com a alma de Deledda...

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18/04/2015
Poesia de um descendente sardo.
Saudoso da ilha que ainda não conheceu e estudioso de suas raízes.
José Capaz Dutra Cappai, 51 anos.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

INTERESSE NA PESQUISA? - Contato direto.

Como jornalista e historiador, estudo a história da imigração dos sardos no Brasil. Também estudo a geneologia de minha família Cappai, com origens em Villasalto na Sardenha. Tenho recebido e-mails, telefonemas e mensagens nos idiomas inglês e francês. Eu falo português e entendo o italiano e o espanhol. Peço que me enviem dúvidas e sugestões por email e responderei imediatamente no seu idioma, usando tradutor. Agradeço a compreensão. Email: italianocapaz@gmail.com
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Come giornalista e storico, studiare la storia dell'immigrazione dei sardi in Brasile. Studiare anche la genealogia della mia famiglia Cappai, con origini in Villasalto in Sardegna. Ho ricevuto e-mail, telefonate e messaggi in inglese e francese. Io parlo portoghese e capisco italiano e spagnolo. Vi chiedo di inviarmi tutte le domande e suggerimenti via e-mail e vi risponderò immediatamente nella tua lingua, utilizzando traduttore. Grazie per la comprensione. Email: italianocapaz@gmail.com
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I’m a journalist and historian, and I have been studying the history of immigration about the Sardinians in Brazil. I also study my family genealogy, Cappai familly, originally from Villasalto, Sardinia. I have received e-mails, phone calls and messages in English and French. I speak Portuguese and understand Italian and Spanish. If you send me any questions and suggestions by email, I will answer immediately in your language, using translator. Thank you for understanding. Email: italianocapaz@gmail.com
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En tant que journaliste et historien, étudier l'histoire de l'immigration des Sardes au Brésil. Étudier également la généalogie de ma famille Cappai, avec des origines dans Villasalto en Sardaigne. Je ai reçu des e-mails, des appels téléphoniques et des messages en anglais et en français. Je parle portugais et je comprends l'italien et l'espagnol. Je vous demande de me envoyer vos questions et suggestions par courriel et vais répondre immédiatement dans votre langue, en utilisant traducteur. Merci de votre compréhension. Email: italianocapaz@gmail.com

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quarta-feira, 1 de abril de 2015

Uma doença maledita no pós-imigração

O TAB – Transtorno Afetivo Bipolar é hereditário na família Cappai. Estudos e pesquisas recentes, feitas por mim e que fazem parte de meu livro, concluem que o "TAB" pode ter levado a família a abandonar a ilha da Sardenha em 1897; os sintomas pós-imigração se repetiram ao alterar o sobrenome da família de Cappai para Capaz (um sobrenome não italiano, muito menos sardo); os efeitos se repetiram novamente com a separação da família entre dois Estados brasileiros na década de 20 (MG e ES) e meu pai João Capaz repetiu o padrão na década de 50 entre dois Estados novamente (MG e RJ).

Analisando este estresse e padrão comportamental, objeto de decisões emotivas muito fortes, a família encontra-se hoje praticamente desagregada entre estes três Estados (MG, ES e RJ). Cabe a este jornalista, bisneto de Giuseppe, o sardo, juntar os fragmentos do passado e de seus ancestrais e montar este quebra cabeça familiar, talvez para sempre sem uma resposta definitiva.

Em primeiro lugar, meu pai sempre acreditou que seu “sobrenome italiano” era Capaz, assim foi comigo por quase 50 anos de minha vida. Pensávamos que só existia nossa família no país, assim viveu a família de seis pessoas isoladas dos outros membros familiares por quase noventa anos em Leopoldina - MG e, muito provavelmente, tenha acontecido com outros núcleos familiares mais distantes. Isto é comprovado, com o registro no Arquivo Público Mineiro, com sede em Belo Horizonte, arquivo que registra a entrada dos imigrantes sardos no Brasil, onde temos mais quatro famílias Cappai além da família do meu bisnonno Giuseppe, que são as famílias de Francesco, Lucífero, Marcellino e Gregório. Não sabemos o grau de parentesco deste enigma sardo e muito menos onde estarão atualmente estas famílias. Mas o fato de ter alterado o sobrenome, não sabemos os motivos, tenha sido uma ruptura traumática e, no mínimo, uma decisão que iria repercutir para sempre na psique da própria família de Giuseppe. 

Um segundo estresse familiar, não menos impactante, é a decisão do meu bisnonno sardo Giuseppe de mudar com parte dos filhos de Minas Gerais para o Espírito Santo, cinco anos após a morte e sepultamento de sua esposa Maria Annica Gessa em Providência, distrito de Leopoldina, MG. Normalmente, dramas muito fortes e que abalam a estrutura familiar tende a unir mais os seus, como forma de reafirmar os votos de família. Isto não ocorreu, mas pode ser interpretado como compromisso do bisavô em deixar seus filhos não casados com melhores perspectivas em outras terras e/ou mais próximos dos parentes e amigos que vieram, e que estariam no Espírito Santo, mas sua decisão foi falha. A nova geração esqueceu do passado e não buscou perguntas e nem respostas, assim o tempo se encarregou de enterrar informações e documentos essenciais ao enigma.

O terceiro estresse familiar ocorre com meu pai João Capaz, primeira geração de sardos no Brasil, possivelmente repetindo o padrão comportamental de bisnonno Giuseppe, abandonaria três dos seus irmãos no Rio de Janeiro. A decisão de mudar de Leopoldina para o Rio de Janeiro viria de seus irmãos Sebastião, Délia e Aparecida e a decisão de não visita-los pelo resto de suas vidas viria de meu pai, o caçula dos irmãos e filho de Raffaele Cappai (Nome no Brasil: Rafael Capaz). O motivo do meu pai sempre foi o preconceito, o estereótipo abominante do “malandro carioca” e da violência no Rio de Janeiro. Meu pai repetiu um padrão comportamental, no inconsciente familiar, desapegando totalmente do que é mais forte neste elo, o abandono do vínculo e das raízes. Fechou-se neste "terceiro ato", a total desagregação da família de Giuseppe, sardos imigrantes que vieram para o Brasil em 1897.

No que refere à separação dramática da Sardenha, minha intuição pede para que não a associe a uma negação, porque espiritualmente sinto saudades fortes da Sardenha que não conheci e meus ancestrais que vieram não se naturalizaram brasileiros; o que me faz crer que tenho em meu inconsciente o amor que tinham por sua terra natal – Villasalto, bem protegida por seu patrono São Miguel Arcanjo. E, no fundo da minha alma, um grito se ergue para que eu retorne à ilha...
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* Estes apontamentos são uma pequena parte de meu livro, que busca remontar a história da família de Giuseppe Cappai (No Brasil, José Capaz) que veio da Sardenha em 1897. Busca embasamentos na pesquisa genealógica, na medicina moderna e na análise antropológica do fenômeno da grande imigração.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

21 de Fevereiro - DIA NACIONAL DO IMIGRANTE ITALIANO.

Em comemoração ao Dia Nacional do Imigrante Italiano, tomei um vinho tinto com queijo curado. Tenho muito a agradecer, também comemorar. Mais do que italiano, sinto na veia a origem sarda. IO SONO SARDO. Descobri as raízes de minha família, como meu presente de 50 anos. A história quis assim, que a descoberta maturasse como a uva até chegar ao vinho. Então, na convicção dos dias e na descoberta de um novo tempo, comemoro meu renascimento como um novo ser, um homem sardo.

Como quem renasce para uma nova realidade, pesquiso os costumes, a história e o modo de viver de meu distante povo. Meus olhos estão animados pelo azul turquesa do mar, das montanhas de Gerrei e acerca do povo sardo e suas histórias. Navego pelas fotos antigas e as paisagens novas, como quem degusta o bom vinho. Pergunto às paginas da internet, ávido de respostas e semelhanças, como uma criança que quer saber de tudo ao mesmo tempo. Tenho gosto de aprender. Tenho meu tempo para aprender. E tenho muito a comemorar as aventuras das tantas descobertas. Ora, sou um arqueológo, colecionando fotos e histórias da civilização nurágica. Ora, sou um capricultor, pesquisando a vida de pastores. Ora, sou um antropólogo, vasculhando costumes antigos. Ora, sou descendente da rara imigração de sardos. Ora, sou sardo, escutando o hino sardo e vertendo lágrimas de emoção nas estradas. E neste renascimento, absorvido numa alegria sem fim, percebo que renasci para um novo tempo, porque agora eu tenho realmente uma história e uma identidade. Na procura de meus ancestrais por um novo tempo, descobri agora que sou autor deste novo tempo, até retornar ao berço de minha história.

Agradeço a Deus e a São Miguel Arcanjo pela coragem de meus ancestrais sardos.
Agradeço a decisão da travessia do Atlântico no Vapor Equitá em 1897, motivo de minha existência e de toda a família no Brasil.
Agradeço pelo afloramento de minha história, numa fase de bom discernimento e deleite.
VIVA O "DIA DO IMIGRANTE ITALIANO"!
VIVA AOS SARDOS E TODAS SUAS HISTÓRIAS!
Um brinde a todos que fizeram e fazem a história deste país melhor.



O Alzheimer na vida dos anciãos sardos.

A Sardenha sofre hoje com o envelhecimento progressivo de sua população e também com o aumento dos casos de demência. Dois terços da população anciã sarda porta a doença de Alzheimer, doença degenerativa do sistema nervoso central, que faz com que os idosos fiquem totalmente dependentes.

O Alzheimer é acompanhado de sintomas cognitivos (perda de memória, desorientação e confusão) e, muitas vezes, por sintomas comportamentais (agitação, agressividade, vagando, insônia, recusa para alimentar, alucinações, delírios, desinibição sexual). Estes sintomas são as principais causas de estresse para os familiares e as instituições que cuidam desses idosos.

Minha família descobriu recentemente os sintomas do Alzheimer no meu pai, com 81 anos. Ele faz parte da primeira geração de sardos no Brasil, esta rara imigração no Brasil e nas Américas. Como bom sardo que é, tem uma saúde de ferro (poucas vezes tomou medicamentos) e irá viver bastante. Guarda em seus relampejos de memória, fragmentos do meu avô imigrante e sua família, Raffaele Cappai, que também registro aqui como forma de fragmentos. Decerto, as pinceladas da história retrata bem a difícil vida dos imigrantes sardos nestas terras distantes. 

Leio nas entrelinhas das conversas com meu pai, a transmissão oral e genética de uma Sardenha distante: as casas, o modo de viver, o gosto pelo trabalho e um jeito peculiar do sardo. Então, vamos ao que meu pai fala do passado:

“Meu pai Rafael, falava pouco. Era enérgico. Eu pouco o entendia, era uma língua estranha. Era muito humano, gostava de ajudar as pessoas...”

“Meu pai me ensinou muitas coisas. Fazia questão de me ensinar ofícios, como trabalhar a madeira, fazer uma cerca e construir uma casa. Gostava de ferramentas e esculpir bois e carros de bois na madeira. Fazia isto até na casca de abóbora, enquanto descansava. Dizia para mim, que o saber não ocupa lugar...”Coisas de pastores sardos.

“Foi dito a mim que de onde eles vieram (Sardenha), as casas eram todas de pedras. A família tinha terras lá e muitos pés de uvas. Minha tia, a Maria, que morreu no Asilo de Leopoldina, não tinha um olho desde pequena, porque furou com o galho da videira...”

“Meu pai Raffaele fazia polenta, macetava e colocava no embornal. Amassava com as mãos e comia de vez em quando com carne de porco e torresmo. Assim passava o dia trabalhando em silêncio...”

“Doutor, carne de leitoa é fortificante...” – Encurralados pela invasão, os sardos se concentraram nas terras do interior da ilha. Muito pouco ia ter no litoral, onde estavam os invasores, por isto não interessaram pelos frutos do mar. Historicamente, caçavam javalis e consomem até hoje muito, muito mesmo, carne de porco. Se falar em leitoa, meu pai é 100% sardo.

“Quando vocês eram pequenos (meu pai conversando comigo) tinha vontade de ter uma carroça pequena puxada por um bode. Fiz isto e ficou muito bonito. Também tive um cachorro, mas ele mordeu seu irmão, quando era pequeno, então o dei para outra pessoa cuidar.” – Rebanho caprino e cães fazem parte do cotidiano dos pastores sardos. Herdamos um gosto no passado.

“Esta igreja, aquele mercado e algumas casas deste vilarejo (São Lourenço, perto de Leopoldina) foram construídos pelas mãos de meu pai Rafael. Vinha a cavalo da cidade até aqui. A casa onde nasci está firme até hoje. Os italianos são fogo. Trabalhou muito...”

“Italiano morre de pé...” “Vou ficar para apagar a luz, não tenho pressa de morrer”. - Convicção de descendente de imigrantes, para dizer que italiano não dá o braço a torcer nem para a morte.

“Estou fechando a dispensa com cadeado, porque estão roubando alimentos. Também as janelas, porque há bandidos por toda parte”.  - Enxergo este delírio de meu pai, 81 anos, como uma síndrome do imigrante em terras estranhas, aflorada pelo Alzheimer.

“Não escute o que ele está dizendo...”Palavras do pai, quando um amigo dele chegou perto de nós, quando eu tinha cerca de 14 anos e disse que meu pai era um capeta de arteiro.

“Mas que merda, não posso falar merda...” - Ao corrigir meu pai pelos palavrões proferidos aos 80 anos, uma reação bem à italiana.

“O homem vale o que tem no bolso...” – Palavras de meu pai, quando eu saí de casa pela primeira vez, para estudar fora. Eu nunca esqueci. Será que isto foi dito pela família durante a travessia com o vapor?

Dez por cento do que ganhamos devemos guardar e não se esqueça do dízimo da igreja...” Receita de sardo religioso e precavido.


“Reze para São Miguel Arcanjo, ele vai lhe proteger...” Meu pai sempre me aconselhou, mas ele nunca soube, e só recentemente fiquei sabendo, estávamos falando do padroeiro de Villasalto, a pequena cidade sarda de 1.140 habitantes, de onde veio nossa família.

Recentemente, li o livro "A ILHA DOS ANCIÃOS", de Ben Hills, que aborda "Os segredos dos centenários da Sardenha", da Editora Prumo. Enxerguei nas linhas deste livro muito da vida dos sardos e até meu pai, compreendi o estilo de vida simples e bem focado de meus ancestrais sardos. O que pode ser corrigido? O que pode ser evitado no sofrimento? Nada, apenas curtir, deixar-se viver, bem ao estilo sardo...

Meu pai, filho de Raffaele Cappai, e seu inseparável salaminho italiano.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Uma oração "italiana", muito especial.


"A Oração da Paz, também denominada de Oração de São Francisco, é uma oração de origem anônima que costuma ser atribuída popularmente a São Francisco de Assis. Foi escrita no início do século XX, tendo aparecido inicialmente em 1912 num boletim espiritual em Paris, França.
Em 1916 foi impressa em Roma numa folha, em que num verso estava a oração e no outro verso da folha foi impressa uma estampa de São Francisco. Por esta associação e pelo fato de que o texto reflete muito bem o franciscanismo, esta oração começou a ser divulgada como se fosse de autoria do próprio santo.
No Brasil mais antiga versão conhecida desta oração é publicada em Anais da Câmara dos Deputados do Brasil em 1957."
FONTE:  Wikipédia

Palavras à "Donna" italiana; a "moglie" de nossas vidas.

QUAL O SENTIDO QUE TEMOS DE NÓS MESMOS???

Provar que somos homens valentes?
Somos fortes e inabaláveis, como defensores da “ilha paraíso”?
De que somos bravos até o ultimo momento, no bom estilo que “italiano que é bom, morre de pé”? Que homem, mesmo agredido, não chora? E quantas foram as agressões em toda a imigração... Que as perdas devem ser contidas por fortes muros de pedra, para impedir novos invasores, como centenas de nuraghes por toda vida? Será que resistirão até o ultimo instante? Quem sabe inconscientemente seremos um sardo sempre armado, à espera de sua caça ou guardando o rebanho? Até onde permaneceremos tão rudes.

Penso hoje que somos um pouco de tudo isto, mas não teríamos humanidade, se não fossem as mulheres em nossas vidas. Este é o maior teste que Deus deu ao homem, a de ter uma companheira em nossas jornadas. EU PODERIA ANDAR PELO VALE DA MORTE, mas se tenho a companheira ao lado, tenho coragem para enfrentar. Lembre que na “louca” decisão de Giuseppe, o sardo, tinha a Maria Annica para atravessar um grande mar e tempos difíceis. E assim se deu várias vezes depois com outras famílias de nossas origens, em outras Cidades e Estados: Abaíba, Providência, Leopoldina, Nova Venecia, Boa Esperança, Castelo, Cariacica, Cachoeiro do Itapemerim, Vitória, Rio de Janeiro, entre outras.

Que reverência estaremos dando às nossas matriarcas, quantas Marias, sem as quais não existiríamos? Que respeito e gentileza estamos dando à mãe de nossos filhos?
Que homens teríamos tornado se não fossem as mulheres? Seríamos perversos? Seríamos animais? Estaríamos perdidos para sempre? Este ponto é importante nas nossas vidas, saber conviver com as mulheres. Porque, se elas são simbolicamente parte de nós, a ponto da Bíblia citar que saiu de uma das nossas costelas, interessa A Quem as criou que cuidemos bem delas. Isto é fato. E esta é nossa prova final. Não podemos perder a paciência, a ponto de rebaixar e depreciar a maior obra de Deus. É pelo interior das mulheres que o milagre da vida se propaga.

Voltamos a nosso exemplo. Giuseppe poderia vir só, tentar a vida na América. Muitos vieram, até clandestinos e morreram sem nunca terem retornado. Eu não teria existido, nem meu pai, muito menos nossas famílias. Mas Giuseppe veio e trouxe Maria, e trouxe sua família. Sabe por que? Porque o maior santuário de um sardo autentico é sua família. E a “madonna”, mãe de Jesus, está personificada na mãe, que é o esteio da família. Giuseppe, pai de Raffaele, não veio só, porque era uma família, como nós. Podemos não concordar, mas é preciso respeitar. E pela concordância e respeito, José e Maria (tradução em português) vieram para o Brasil.

E esta tem sido “minha bíblia”, a história dentro da história familiar. Passo todos os dias, buscando conhecer o rosto de meu bisavô Giuseppe e bisavó Maria Annica, uma missão de vida e de total reverência a nossos ancestrais. Imagine a situação: Giuseppe teve uma visão de que deveria pegar a família e seguir outros para uma tal América. Rezou e Deus deu-lhes força para convencer Maria, porque acreditava que a crise no seu país iria massacrar a todos. MAS SE GIUSEPPE fosse temeroso de viajar e renitente como meu pai João Capaz. É simples, não existiríamos aqui para conversar sobre genealogia. E graças à Maria Annica, esta grande mulher e minha bisavó, que aceitou a empreitada da imigração, trouxe no colo o meu pequeno avô Raffaele. Assim a vida germinou em terras brasileiras...

Os sardos são um povo com milhares de anos. A raiz de nosso sobrenome Cappai aponta para o judaísmo na Sardenha, com origens bíblicas, naquele povo que caminhou pelo deserto (Gabbaj) na tribo de Benjamim. Isto pode confirmar que somos de origens rudes, muito antigas e estamos procurando pela terra prometida há muitas e muitas centenas de anos. Não podemos ficar perdidos tanto tempo assim. Já estamos conscientes demais de nossos papeis, por isto, procuro refazer e entender a história familiar. É preciso buscar meios de unir a família, num grande encontro de gerações, esta é a missão...

Consegui reestabelecer parte do elo da corrente, rompida pelo tempo, mas a pesquisa continua. A leitura desta história precisa avançar e ser repassada aos nossos descendentes. Em algum tempo ou lugar, terá outro José ou Maria, meus descendentes, para trilhar estes caminhos. Não posso ficar surdo e mudo diante da história, porque sinto uma obrigação visceral pela pesquisa da história familiar. Em tudo que fazemos, SOMOS DEUS EM AÇÃO, porque fomos criados à sua imagem. Negar a história é negar a própria identidade.


Passei a bendizer tudo que me aconteceu, agradeço a vida que levo, o passado que tive e a vida que poderei ter futuramente. A criação de Deus está no ar que respiro, na água que me serve, no barulho do riacho, nas nuvens, no sorriso, no semblante do próximo, na palavra amiga, na gentileza, na vivência do mundo, no etéreo, na espiritualidade e na crença de uma nova etapa na vida. Alguns viajam de bicicleta, outros de moto, de ônibus, de carro de luxo ou de avião, seja de qualquer forma, mas todos chegarão lá. Alguns fazem caminhos tortos e complicam, demoram, mas chegam também lá. Serão negros, brancos ou amarelos; podem ser drogados, prostitutas ou ladrões, mas chegarão lá. Lembro-me que Jesus perdoou dois ladrões, crucificados a seu lado, para dizer que não podemos ser preconceituosos, não jogar pedras. Muito da nossa história familiar ficou para sempre perdida, por conta de preconceitos, como na maioria da história das famílias. É importante perdoar o passado e construir uma nova história. A austeridade já fez muitas vítimas e distanciou pessoas. É preciso ser paciente e tolerante com nós mesmos. Este é meu entendimento pessoal de ser Cristão. 

Saudações à todas as mulheres da família e a meus ancestrais sardos, imigrantes e corajosos. Amém. 

Um passeio de carro pela Cordilheira dos Andes, além da fronteira, em 2012.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Palavras ao meu pai sardo-mineiro - Parte III



TRANQUILIZA SEUS PENSAMENTOS E SEU CORPO, porque venceu o bom combate.

A morte chega a todo vivente, e não se deve resistir e cultuar o corpo, é apenas um empréstimo. Somos espíritos com experiência de corpo, como diz os preceitos da velha religião na Sardenha.
Não devemos torturar com pensamentos e rancores em vão, quem nos acompanha a jornada. As inquietações do velho combatente devem ser estancadas, porque um novo tempo há de vir.
Toma como exemplo os centenários desdentados da Sardenha, com o riso maroto no rosto. As rugas dos sofrimentos não apagaram a singeleza e a tranquilidade de suas almas.
Pelo contrário, tomam seu vinho, caminham ao sol, conversam nas praças e são amigos entre si. Os geneticistas estudam o DNA dos velhos da Sardenha para saber por que vivem tanto.
Após ler e comungar pensamentos ancestrais, posso dizer que entenderam o sentido da vida. Nossos ancestrais Giuseppe e Maria, Raffaele e irmãos, não morreram. Está aqui nestas palavras.
Creio que voltaram juntos para a ilha, a que todos os residentes chamam de “ilha paraíso”.
A ilha de nossos ancestrais reporta à antiga Atlântida, uma terra de grande energia concentrada. Historicamente, foi repetidas vezes invadida por bárbaros e protegida bravamente pelos sardos.Quantas vezes nosso “paraíso” interno, o equilíbrio pessoal é invadido ao dia? Uma bárbarie. E quantas vezes, esta invasão, clama pelo ideal de termos a família, toda unida perto de nós?

Giuseppe e Maria sonharam um dia em ter uma fazenda para toda família, gravado em nosso DNA. Uma comunidade agrícola autossustentável, que você sonhou e eu também sonhei, uma utopia.

Mas hoje temos a missão de perpetuar a história, a saga da família Cappai.

Palavras ao meu pai sardo-mineiro - Parte II



ACALMA ESTE CORAÇÃO VALENTE, DE DESCENDENTE SARDO, MEU PAI.

Uma origem distante, das terras milenares da Sardenha, uma veia além-mar.
O gosto por ferramentas, o lavrar da madeira e o erigir sistemático de obras reais e fantasiosas.
Sulcado na alma a ferro e fogo, a valentia e o sonho de espíritos inquietos, sem fronteiras.
Rude nas origens do “popolo sardo”, homem do campo, construtor e semeador.
Errante protetor da família, solitário e resistente criador de ovelhas, afastando lobos e fantasmas. Incompreendido em sua forma bruta, como animal enjaulado e solto em terras estranhas.

Giuseppe Cappai, um homem da ilha que enfrentou o mar, simplesmente José. Maria Annica, uma mulher forte com seis filhos, que seguiu seu marido, simplesmente Maria. O casal José e Maria, nomes de nossa origem, apontam nossa fé e destino comum.

Na leitura desta raiz comum está nossa existência e nosso fim, a reflexão da própria vida. José e Maria pensavam retornar à ilha, mas morreram sardos em terras brasileiras. Seus filhos dispersos lutaram para atenuar a maior apunhada ao homem do mediterrâneo. A perda do elo familiar, cuja base é Maria, falecida cinco anos antes do casamento de Raffaele. E por falar em Raffaele, nome de anjo; o padroeiro de Villasalto é Arcanjo Miguel, nosso protetor.

São estas histórias que encouraçam nossos corpos na batalha, como cristãos nesta terra.Somos uma igreja viva, regida pela esperança e o descanso em uma terra prometida. Nossa história não tem pedras erigidas, nem cadeados e grilhões, é a face da liberdade e do sonho.

Giuseppe e Maria, Raffaele e seus irmãos, passaram. Assim como nós, voltaremos a terra.

Palavras ao meu pai sardo-mineiro - Parte I

SOSSEGA SEU CORAÇÃO MEU PAI, que o tempo é para refletir.

Não é tempo de preocupar com os filhos, que bem formados e instruídos estão.
O passar das horas são dádivas de um Pai maior, aos filhos maduros e aprendizes.
De todas as lições da vida, ainda que o peso seja implacável aos ombros, ainda está em curso.

Pense que os maiores bens e conquistas são interiores e este ninguém os leva, senão tu.
Que mesmo os faraós que se fecharam em tumbas, tiveram seus profanadores com o tempo. Este tempo terreno e suas matérias são irrelevantes e inexpressivos comparados à alma.
A alma generosa e com a vida em oração não se deteriora e nem se apega a este mundo.
É vero! Deste mundo nada se leva, mas quanta energia e tempo gastamos com esta matéria.
O passar das horas, nesta batalha entre o surgir e o partir, são glórias e momentos de solidão. Nascemos sozinhos e partimos na solidão, porque somos projetos individuais de uma Grande Obra.
Eis que chega um momento que é desgarrar-se deste mundo, fato incompreensível a muitos. As paredes que nos abriga, um dia serão ruínas e lembranças familiares. Muitos dos infortúnios e martírios serão para sempre apagados, porque são ultra pessoais.

Quem é João? Que passou Rafael? Onde anda Giuseppe? A quantos importam tais respostas.
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Meu pai João Capaz de Oliveira, filho de Raffaele Cappai, tem hoje 81 anos de idade hoje. É forte, muito ativo no dia-a-dia e uma memória oscilante. Tem mania de fechar tudo com chave e cadeado. Adora uma conversa. Dorme tarde e acorda de madrugada para fazer café. Tem um pequeno santuário em casa, onde reza todas as manhãs. É ministro da eucaristia, mas afastou um pouco por conta da saúde. Teve renovada recentemente sua carteira de motorista, mas por lapsos de memória e "apagão", os filhos pediram para não dirigir mais. Como bom descendente sardo, irá viver mais, sempre atento às histórias da Sardenha e dos ancestrais. Ao meu pai, dedico minhas atenções literárias e leituras...

A busca de fotos dos ancestrais na Sardenha.

Buon giorno. Il mio nome è Cappai José Dutra. Io Sono di Minas Gerais, in Brasile. I miei antenati sono nati in Villasalto. Mio nonno Cappai Raffaele è il figlio di Cappai Giuseppe e Gessa Maria Annica. Arrivati in Brasile nel 1897. Il mio bisnonno Cappai Giuseppe è il figlio di Cappai Antonio e Agus Marianna, che sono sepolti a Villasalto. La ricerca genealogia familiare a Villasalto. Mi piacerebbe avere una foto dei miei bisnonni. 

La ringrazio molto se mi potete aiutare nei ricerca. Grazie Mille.