quinta-feira, 27 de abril de 2017

Crônicas do Sardo Mineiro

A CHAVE DO TEMPO

Em sonho, veio uma revelação inesperada, através do Anjo dos Pastores sardos. Da longínqua Criação do mundo veio uma herança maior aos homens, a chave do tempo. Não era uma arca, não era de ouro, um troféu, nenhuma tradição oral, nada de pedras ou ervas sagradas, mas o divino som dos sinos. A sua perfeita afinação é a chave do tempo. E o vento que leva seus segredos, pode trazer de volta o ressoar dos tempos, como o ir e vir das ondas. Tem o som do Universo, do equilíbrio e da Criação do Mundo. Tem o segredo dos tempos passados e a sintonia com o futuro.

São muitos os sinos e suas finalidades. Os sinos das naves ao mar e aqueles que guiam nos faróis em tempos ruins. Os sinos dos Nuraghes, da idade do bronze. Os sinos das igrejas e o anúncio do sagrado. O sino fúnebre. O sino do natal, anunciando a Boa Nova. O sino da contemplação budista ou tibetana. Sino dos Ventos alertando os tornados. O Sino do garçom, saindo o prato perfeito, a hora da degustação.  O Sino da portaria do hotel para a chegada do hóspede. O Sino da cultura dos Mamuthones. Os Sinos de alerta das Cabras aos pastores. O sino que aportou junto com as caravelas, na fundação de Pindorama, em terras distantes da Sardenha. Ressoa a partida, a promessa, a chegada, a alegria, distribuindo bênçãos.

Sete por cento da população convive com um zumbido nos ouvidos, um tal “Tinnitus”. Não tem causa mecânica ou clínica, vão e vem sem motivo qualquer, sem ter qualquer remédio que o encerre definitivamente. Há cerca de cinco anos, muito incomodado pelo zumbido e após uma leva de antibióticos sem nenhum resultado, fui a um médico de nome Wilson, mineiro de Pouso Alegre e a resposta que tive dele foi que: “...enquanto falava do seu zumbido, acabou de alertar o meu”. E concluiu que era normal, era só não preocupar com ele, desencanar, que ele partiria como veio. Então, comece a pesquisar também, assim como fui instigado. Chegará nos 432 hertz, a frequência do Universo, o zumbido primordial. Surpreenda com a “Afinação de Verdi”, o compositor italiano que sintonizou em suas composições nesta frequência. Se adentrar o campo místico, se encantará pela Terapia dos Sinos, principalmente na cultura oriental.


Em 1821, em Cagliari, Ilha da Sardenha, o construtor Raffaele Cappai reformou o sino da igreja barroca. Em 1969, o módulo lunar da Missão Apolo 12 foi arremessado na lua e ela soou como um sino por oito minutos, gerando até hoje um enigma para os cientistas. Em 1978, na época seminarista, toquei o sino da Catedral de Leopoldina e fascinei pelo ressoar sagrado dos sinos. Em 1986, maravilhei com o repicar contínuo dos sinos na Semana Santa em Ouro Preto. Em 2 de Abril de 2005, os sinos repicaram no mundo todo pela morte de João Paulo II. Hoje, me divirto no quintal de casa fazendo Sinos de Vento e escutando suas diversas entonações na passagem dos ventos. Viajo na parte de minha alma, dos pastores ancestrais, que escutava suas cabras ao largo. Quantas histórias e recordações trazidas no ressoar dos sinos, se revelando a “chave do tempo” dita pelo Anjo dos Pastores Sardos...

_______________________________________________________________         José Capaz Dutra Cappai, 53 anos, é jornalista, historiador e pesquisador da imigração sarda para o Brasil. Autor do Livro "A ILHA QUE ATRAVESSOU O MAR", em fase de publicação.


Crônicas do Sardo Mineiro

Sono sardo.

Uma decisão pessoal com implicações místicas e familiares, que ocorrem pelo menos uma vez na vida, essencial para uns e sem nenhum valor para outros. Mas seja o que for, há coisas na vida, em que o apelo espiritual esgoela mais alto que a opinião de quaisquer viventes, ainda que estes estejam profundamente ligados à sua existência. Então seja o que for, vá e faça, não deixe que lhes roube este momento que é todo seu. E foi assim que alterei meu nome e sobrenome, em homenagem às descobertas de minhas origens sardas. Meus ancestrais atravessaram o Atlântico, vindos da ilha da Sardenha, traziam a alcunha de “Cavaleiros Hereditários e Nobres Sardos”, titulo familiar recebido em 2 de novembro de 1677. Mais que isto, a genética centenária da ilha grita forte em minhas veias, nada soberbo ou superior, mas da descendência de simples e rudes pastores de ovelhas, atentos e honrados por acompanhar seus rebanhos.

E na crise que assolou toda Europa, Giuseppe Cappai e sua esposa Maria Annica Gessa, com seis filhos, entre eles meu avô Raffaele, no ano de 1897, atravessou o Atlântico e veio ter incólume nas terras de Leopoldina, com todos os desencontros mal enraizados na vasta zona da Mata mineira. Eram empreendedores e sonhadores como milhares de imigrantes que constituíram a história brasileira, deixando frutos que melhorariam pelo trabalho este país sul americano. O estudo da genealogia e busca da cidadania passou a ser a vereda do reencontro com minhas raízes. Esta busca deu sentido à vida deste cinquentenário, aponto de torna-se a razão de viver e escrever. É um caminho solitário, de cunho histórico e espiritual, que sobrevive dos fragmentos de uma tênue “arqueologia” familiar; algo muito profundo, pessoal e inarrável. Um sentimento impar, diria original.

- Sua filha fez o mapa astral e aponta que o nome alterado resgatou coisas antigas do passado, que precisam ser trabalhadas.

- Em que aspecto?!

- Sim pai, nas runas apontou Odin, o Deus nórdico, que aponta que a ancestralidade precisa ser trabalhada. A consultora do mapa disse que terei que fazer a “Constelação Familiar” e até consultar uma psicóloga.

- Seu pai está viajando?! – Pergunta meu pai com 83 anos e portador do Alzheimer, olhando através de mim, olhar vago e crispantes ao interrogar, como se todos meus ancestrais o perguntassem.

- Não meu pai, está aqui perto de mim.  – Ao que concluo em pensamentos, com a voz de todos meus ancestrais, pais nunca saem das memórias. E chegará o dia que as ideias falharão, porque o tempo se encarrega de apagar a própria história como sinal de renovação. E vivemos um tempo que é perda de tempo falar do antigo, porque o jovem não relaciona com os velhos, exceto o passeio “vintage” para recordar o antigo em museus...

- Quando mudou o nome, puxou toda energia ruim de seus antepassados, agora sofremos com sua decisão! – A frase da “patroa” me soou como um vinagre sobre a boa refeição e o espetacular resultado do vinho chileno. Curtia estar ali, no almoço de sábado com a família, fazendo valer os esforços de meus ancestrais na travessia do grande mar. Abandonaram seus amigos, cultura, sua ilha, suas terras, seus ideais, para estar ali representado naquela mesa. Mas algo fugiu ao controle, quando os ventos nos conduziram a outros portos...

Uma explosão ecoou em meu espírito, tendo como o epicentro o ponto mais profundo de minhas convicções. Não poderia aceitar e o terremoto foi inevitável...

- Não misture os assuntos, por favor! Não carregue de culpa minhas escolhas. Não sou responsável pela crise financeira que passa o Brasil, esta merda de governo petista e muito menos pela falta de alternativas no momento. Não sou responsável pela corrupção do governo e seus efeitos sobre o orçamento familiar, mas nada disto se relaciona com minha opção. Orgulho de minhas raízes, sou descendente de pastores sardos. Nada que possam dizer de minhas opções, mudará meus caminhos. Tenho certeza que minha história é boa e meus frutos falam por mim. Não me julgue, porque não estou julgando ninguém. A história de cada um é o que diz, é de cada um, a ninguém interessa senão a mim... Mas tenho comigo que, se a ninguém interessa pela história familiar neste momento, não posso parar, porque nascerá algum dia alguém que irá se interessar. Não posso tirar dele o acesso a este conhecimento.

          A resposta do “terremoto” expandiu-se com moderada carga semiótica, a partir dos ecos de seu epicentro, ao que posso chamar apropriadamente de Zona de Divergência. Saiu do Jornalista para sua esposa Jornalista, ambos formados em 1992 na primeira turma de Comunicação Social da Univás; repercutiu seus efeitos mais brandos às duas filhas distantes, que passaram por indiferentes à discussão. Passada a explosão e o silêncio que decorre de toda atividade sísmica, saio convicto de que o interesse da história esbarraria naquela máxima “Deixe seus mortos enterrar seus mortos.”, como se tudo estivesse enterrado e nada mais faria diferença conhecer, difundir ou defender. Sacudi a poeira, afastei-me da discussão isolada e dos efeitos cataclísmicos desta genealogia e astrologia mal resolvida e passo a digitar algumas linhas, quando sinais de uma reconstrução reergueram fragmentos da alma nos escombros...

A amiga e esposa que me acompanha há 27 anos seguira até o escritório, dando-me um beijo na face. Vinha em missão de paz, como a Cruz Vermelha a socorrer sobreviventes da catástrofe, com a certeza que o faria, como sempre fez, confirmando que vale a pena prosseguir a história. Que apesar das inquietações da história e o isolamento de nossos dias, a única verdade é estar vivos e bem. Mas uma parte de mim reclama por revoluções interiores, inquieta por enigmas insolúveis, sacolejada por pequenos abalos sísmicos diários, segue pela saudade de uma terra que nunca conheci, até quando não sei. E num lampejo de lucidez de meu pai, com um brilho no olhar e certo sarcasmo no sorriso moleque, vem à memoria e me diz:

- Lá vem você de novo, com esta história dos sardos!

Ao que respondo agora, depois deste episódio:  - Per sempre, padre mio, io sono sardo!



_______________________________________________________________            José Capaz Dutra Cappai, 53 anos, é jornalista, historiador e pesquisador da imigração sarda para o Brasil. Autor do Livro "A ILHA QUE ATRAVESSOU O MAR", em fase de publicação.

Crônicas do Sardo Mineiro

O Mar de Shardana
             José Capaz – 02/11/2016

Cappai, sardos de sangue e alma fortes,
Raízes viris, profundas e enraizadas ao relento,
Herdeiros da milenar Shardana, “popolo di mare”,
Origens mediterrâneas, megalíticas e relevantes, o tempo.

Lavorava em tempos idos os vinhedos villasaltesi,
Sobre pedras enigmáticas de Nuraghes, cabras ao horizonte.
O mar como fronteira, no coração mole de rochas insondáveis,
E, incontinenti, no “Risorgimento”, arrancaram-lhes a terra.

Cappai, família sem terra, identidade provocada,
Genética flamejada de Giuseppe e Maria Annica, família ao mar.
O olho perfurado pela colheita nas vinhas, de sua filha Maria,
Preconiza, além das montanhas de Biddesatu, tempos de carestia.

Chama viva consome a alma, sacolejada por veredas incertas,
De prosaicas cantigas dos “gens” que decidiram pelo mar,
Falam guerreiros e aventureiros d’outrora, ventos arredios.
Trouxeram ao sacolejo das ondas seis filhos, para América conquistar.

Cappai, destroçado pela rara travessia, morre Maria,
Memorizando na América a nevada Gernnagentu, divide a família.
Giuseppe só, imigrante destemido, agoniza sem meios de rever sua ilha.
E, em serras capixabas, espírito de Shardana, há sempre de avistar o mar.

Oh! Giuseppe! mio bisnonno, história perene que me encanta,
Neste Dia de Finados, aqui na serra da Mantiqueira, distante do mar.
Giuseppe, Maria Annica, Antonio, Maria, Salvatore, Filomena, Danielle, Raffaele,

Renascem todos na inquietude da alma, a ilha que anseio reencontrar.


_______________________________________________________________            José Capaz Dutra Cappai, 53 anos, é jornalista, historiador e pesquisador da imigração sarda para o Brasil. Autor do Livro "A ILHA QUE ATRAVESSOU O MAR", em fase de publicação.

Crônicas do Sardo Mineiro

Ter sangue sardo é...

Cultivar a ilha paraíso no coração, sem fazer da alma uma ilha.
E mesmo cruzando extensos mares, carregar sua história milenar.
É cantar cappela e ecoar seus sentimentos ao longe, abraçando o mundo.
Numa mística forma que envolve todas as estações e sentidos.
É ser forte e galgar alturas como muflones nos rochedos.
Ter a paciência de pastores e monges a vigiar seu rebanho.
É não se entregar fácil aos desafios de seus algozes, na nobreza de javalis.

Ser família, como profissão de fé diária.
Seguir procissões e ritos, pedir a benção do nonno nas árduas campanhas.
É não ceder ao jogo da vida, como pedras que se moldam ao vento inclemente.
Sentir-se parte da natureza, do cosmos às profundezas do ser, colhendo uvas.
Ter adiante das veredas, a presença de São Miguel Arcanjo.
Agir no tempo certo, calmo como a corticeira que se deixa cortar e servir.
Sentir-se pleno aos pés das montanhas, com Gennargentu a nos sondar.

É ter no vino, formaggio di pecora, pane curasao, uma conexão celestial.
Viajar pela gastronomia, como el trenino contornando serras e mar de rara beleza.
Cultivar a arte na madeira, na cortiça e na rocha, gravando-a para a posteridade.
Guardar n’alma, mais de sete mil torres de enigmática beleza, uma parole sem fim.
Desfazer-se das máscaras e do sentir Mamuthones, ao som dos sinos e ventos.
Na manhã seguinte, renascer livre e forte como um histórico Giganti di Prama.
É dizer Io sono Sardo, cujas raízes nurágicas se perdem nas brumas do tempo.

Quando vir a solidão, invade n’alma o canto de launeddas ao vento.
Ou grite e ouça seu eco nas montanhas, como puro manifesto da liberdade.
É falar de política, no ir e vir de ideias gramscianas, de um mundo manipulado e perdido.
Tomar uma Ichnusa, quando todos os argumentos falharem na vagueza do ser.
Ter odores e sabores dos campos floridos e entender a neve, quando tudo adormecer.
Acordar com o dia em brumas na Pinnetta, rodeado de cabras e pensamentos.
É tudo sonhar, sem nunca ter estado no lugar, mas viajar com a alma de Deledda...


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18/04/2015
Poesia de um descendente sardo.
_______________________________________________________________            José Capaz Dutra Cappai, 53 anos, é jornalista, historiador e pesquisador da imigração sarda para o Brasil. Autor do Livro "A ILHA QUE ATRAVESSOU O MAR", em fase de publicação.

Crônicas do Sardo Mineiro

OS MOINHOS DE QUIXOTE

O fim de tudo é certamente a vida que encerra. Assemelha-se ao fim do mundo, o prenúncio da morte para o indivíduo, um estado completo de solidão na vastidão deste mundo. Morrer é um ato essencialmente solitário e não precisa ser paciente terminal. Não há desamparo maior que chegar ao fim da trilha e terminar a vista sobre um grande abismo. Neste, não há quaisquer vistas que orientem o novo rumo ou mesmo se há nova chance; se é de fato o fim do caminho ou se ainda teremos forças para enfrentar. Mas a biologia caminha inversa à sanidade dos melhores planos. E então, um cinquentenário se encontra frente a frente no desalento do último enredo; na leitura dos olhares perdidos e minguados dos anciãos recolhidos no leito dos hospitais. Quantas histórias magníficas deixarão de ser contadas ou, em muito breve, estarão irremediavelmente dispersadas e esquecidas! Não há lógica para o arquivista pesquisador ou ao escriba, na matéria prima lapidada no tempo e dilapidada pelo próprio senhor tempo. Olho para o abismo e o abismo olha para mim, buscando uma decifração da vida e morte. Que sentido faz tudo isto agora? Desejaria conversar francamente com meu pai, hoje com 83 anos, das descobertas que não tive tempo de relatar, das aventuras que empreendi desde que saí moleque de casa ou mesmo jogar palavras ao vento no alpendre, como velhos amigos, pai e filho curtidos pelo tempo. Mas não tive tempo, porque o Alzheimer chegou primeiro.

            A química da morte superou a química da vida, levando a memória de tudo. O baú da família carunchou os porquês essenciais da família, aniquilando a identidade ocultada ou pouco vivida, como que enterrando finalmente nossas raízes imigrantes. Química da morte, “figli di puttana”, que arrasta partes importantes de acervo das famílias, expostas ali à minha frente, como manchas no cérebro numa imagem da ressonância magnética. O cérebro morre rapidamente, juntamente com as palavras e sua lógica mundana, como despedida em vida.

- Como é o nome daquela mulher que fica lá em casa?!, - Perguntou meu pai, certa vez, no início da doença. 

- É sua esposa meu pai, a minha mãe. O nome dela é Lêda. Não esquece, porque ela vai ficar brava... – Brinquei, achando graça do inusitado.

E surpreendentemente, zeloso que deveria ser com os detalhes da paternidade de quatro filhos e a manutenção da casa, pediu olhando fortuitamente para os lados, como investigando com os olhos a localização da companheira de tantas décadas.

- Anota num papel e coloca no meu bolso, porque não posso esquecer seu nome. – Apressou meu pai em consertar o terrível lapso, desculpando-se com riso amarelo....

E passado apenas dois anos do trágico avanço do Alzheimer, minha mãe também ingressou na doença, aos 83 anos. Nunca minha Certidão de Nascimento sofreu tantas alterações. Não sei se chamo José, Antônio ou Batista, ora apenas “menino”, mas atendo prontamente qualquer nome que venha em minha direção. Perdi as forças para corrigir, porque a repetição do erro é torturante, tanto quanto o fantasma que agora nos ronda. As argumentações ficaram tênues, sem expressão, como resvaladas para o nada e, assim, emudeci com eles. Uma semana com meus pais é a pura expressão de parte decadente de mim. Sou como alicerce da construção carcomida por ondas salobras, expondo esqueletos nas colunas herdadas, que acreditava serem de aço. Deparei-me com minhas fragilidades, falhas e ausências. Deveria tê-los incitado à lógica da vida, ao raciocínio das letras e na dinâmica de novas experiências. Cuidava de minha profissão e família à medida que a doença se manifestava há quase 500 km de distância entre cidades, que separa o sul de Minas com a Zona da Mata mineira. Tenho nos braços hoje sua primeira bisneta, o ícone da renovação da vida, que jamais reconhecerão. E neste cenário familiar frágil, encontro com a “química da morte”, que me leva a digladiar com Planos de Saúde e Ouvidorias apelando-os na “obrigação de fazer”, as drogas “tarja preta” para postergar a vida quase sem vida e angústia na falta de ambulância para o transporte emergencial. E para complicar meus pensamentos, uma tragédia de grande extensão há poucos anos deu novo rumo na história familiar, que ainda enfrentamos. E foi assim que comecei a pesquisar o Alzheimer e sinto que devo compartilhar singelamente o que descobri.

Descobri que não existem receitas ou chás para envelhecer saudável. Também que os traumas e as dores foram feitos para serem enfrentados, chorados ou compartilhados, a seu tempo, ainda em campo de batalha. Compreendi finalmente que o homem é um ser social, como foi enfatizado por tantos filósofos. Não podemos nos isolar, jamais. Que minha presunção, orgulho ou vaidade não servirá para nada, a não ser distanciar as pessoas. Por outro lado, a amizade, o sorriso e a caridade rejuvenesce o coração. Devo respeitar a história e fragilidade do outro, ser amigo. Que nunca é tarde para aprender qualquer coisa; é preciso reinventar-se. A “solidão dos velhos” pode nos matar. A sociedade ocidental criou padrões, como a idolatria à juventude e ao corpo “sarado”, repetindo antigos gregos, criando quase ojeriza àqueles para o qual o tempo passou. Aprendemos a associar o idoso à doença, problemas e limitações, peso para a sociedade e a previdência social. Caminhamos para um país velho, sem estrutura e organização mental para esta realidade. De qualquer forma, busque o ambiente que lhe agrade e importe com você. Sou agente de minha realidade. E por toda experiência passada, agradeço a graça de tê-las vivido.

A figura do “zumbi” sem cérebro, não interessa senão à indústria do cinema ou aos laboratórios farmacêuticos. O ato de viver é um constante reinventar da vida, longe de ser Zumbi. Não devo reclamar do que não posso fazer, mas simplesmente fazer. Não posso isolar do mundo, porque não terei ninguém para compartilhar ou ouvir minhas descobertas. Vou trabalhar sempre, pois os frutos colhidos pelo meu pai são amargos, por ter aposentado cedo aos 52 anos e ter trancado num apartamento, com medo de um mundo violento e perigoso. É inevitável ficar velho, mas quando deixamos de sonhar e nos isolamos, seja em qualquer idade, iniciamos a própria morte. Geneticamente carrego o Alzheimer, mas posso mudar isto, aprendendo uma nova língua, mudando temporariamente para outro país, aprendendo com outra cultura e forçando o cérebro a novos comandos. Virei vegetariano. Bebo água de nascentes. Aprecio a natureza. Tenho hoje a idade que meu pai aposentou e não posso seguir o mesmo padrão comportamental. Não pretendo ser jovem novamente, porque cronologicamente isto é impossível, mas posso imprimir “juventude” nos meus dias. Isto significa renovar os pensamentos, rever conceitos e paradigmas e realizar atividades diferentes. A cada dia, tenho a felicidade e o presente de recomeçar novos projetos e reinventar ideias. E quando Dom Quixote de La Mancha começar a ver perigosos gigantes nos moinhos de vento, certamente lembrar-me-ei da resposta de minha sogra “Dona Marta”, numa manhã de domingo, no quintal de casa, quando perguntei:

- Qual o seu segredo para envelhecer com saúde?

- Não preocupe com isto! -  Sábias palavras de uma alma caridosa, de quem enfrentou muitas batalhas, cativa com cantorias e recita trovas aos 88 anos.



_______________________________________________________________            José Capaz Dutra Cappai, 53 anos, é jornalista, historiador e pesquisador da imigração sarda para o Brasil. Autor do Livro "A ILHA QUE ATRAVESSOU O MAR", em fase de publicação.

Crônicas do Sardo Mineiro

A ETERNIDADE DESTE INSTANTE

            Este instante de fraquíssimos segundos,
            Traz o peso de uma eternidade.
            É uma dádiva respirar saudável neste instante.
            Ter sua consciência plena, terna e paciente.

            No relance, as palavras que salvariam vidas.
            A tranquilidade que evitaria acidentes.
            A colocação das palavras que pouparia dores.
            Esta fluidez dócil do espírito que busca a paz.

            E somente neste instante de gratidão.
Como oração, busco indelével o equilíbrio.
            Único, intenso, entrega verdadeira ao senhor tempo,

            Porque, o cinquentenário não tem pressa, apenas poesia.



_______________________________________________________________           José Capaz Dutra Cappai, 53 anos, é jornalista, historiador e pesquisador da imigração sarda para o Brasil. Autor do Livro "A ILHA QUE ATRAVESSOU O MAR", em fase de publicação.

Crônicas do Sardo Mineiro

UMA ANALOGIA INEVITÁVEL
                                      Imigração na atualidade.

A rede virtual se assemelha ao mundo real, mesclam fragmentos históricos, armazena e veicula percepções de tal forma que funde com a própria realidade. O “ouro verde” do século XIX agora é substituído pelo ouro moderno, a tão disputada informação. Muitos pretendem “fazer a América” neste ambiente novo. Mas é preciso saber “navegar”, atravessar o grande “oceano” que agora distingue os indivíduos conectados daqueles não conectados. Vivemos uma nova “monocultura”, que se mescla perigosamente ao mundo real globalizado. Nasce uma cultura planificada, sem fronteiras e, intencionalmente, com poucas regras. Tornamos, assim como nossos ancestrais imigrantes em Minas, internautas. Um novo “laboratório de gentes” se formou; agora em patamares e consequências inimagináveis.

Os rastros “imigratórios”, aqui e acolá, são “aparentemente” deletados, mas uma lista de desejos e de indesejáveis já se formou. O sistema sabe tudo de você, porque investiu para que estivesse com você. Mapearam seu “Stato di famiglia”. Agem como uma “Superintendência de Imigração”, coordenando, selecionando e registrando fluxos de ideias e mentes. Formou hospedarias, colônias e grupos. Alimenta as diferenças, se mostra solícito a todos, tudo a título da liberdade de expressão. O “ouro moderno” movimenta nossas vidas cotidianas, bancos, bolsa de valores, mercado de ações, nações, opiniões, com forte apelo motivacional. A moderna oligarquia mundial, com gigantesco poder de transformação, manipula este mundo virtual. Isto será sempre negado. É uma rede de “malha fina”, onde nada passa despercebido.

No ambiente virtual, a sensação é a de “ser imigrante”, ainda que não percebida ou admitida, a identidade “roubada”. A teoria do sardo Gramsci, com os conceitos de “hegemonia cultural”, é perfeita na definição desta “terra virtual”. O exemplo é bem atual. A oligarquia não se vale da violência para governar, mas sim de ferramentas culturais e ideológicas, que constroem o consentimento geral. A “hipnotização” dos internautas ocorre como no passado da colonização de Minas, sedução e falsa propaganda, que lhe rouba o tempo e os sonhos. Nas ruas, os “imigrantes” de hoje digitam avidamente seus celulares. São milhares de conectados, quase incomunicáveis no mundo real. A ordem é navegar. O celular, como as antigas ferramentas agrícolas, é indispensável ao pretenso moderno, ao entrosamento e ao posicionamento social. A ideia é sugerir um território “livre”, sem fronteiras. Nele é permitido entrar e sair a qualquer hora. Não se iluda, estamos num ambiente hipermonitorado. Maquinas praticamente “pensam” e registram os menores movimentos. Tudo é traduzido em estatísticas, tornando previsíveis os comportamentos, gostos e tendências. Subliminarmente, dia a dia, ocorre a desconstrução do indivíduo e das famílias.


Este internauta é conduzido à superficialidade, indivíduo sem fronteiras e sem raízes, um receptáculo de emoções dúbias, um mero prisioneiro, sem identidade. Nada difere daquele imigrante real do passado, que sequer deixou documentos ou foi sepultado como indigente. Muitas nações estarão em perigo entre os dois mundos, como reflexo de benesses e maldições em tempo real. A educação virtual é arrebatadora como uma onda, subtendida, informal e superficial. Quanto maior a extensão deste saber virtual, de rápido consumo, menor a visão em profundidade do seu ávido consumidor. E a navegação não pode parar; é frequentemente medida e comemorada por sua oligarquia. Nos consultórios médicos já chegam os primeiros náufragos doentes, “viciados” na navegação, são indivíduos sem fronteira e sem identidade. E mais uma vez, os imigrantes estarão abandonados e doentes nesta terra artificial, fazendo parte das novas estatísticas...