quinta-feira, 27 de abril de 2017

Crônicas do Sardo Mineiro

UMA ANALOGIA INEVITÁVEL
                                      Imigração na atualidade.

A rede virtual se assemelha ao mundo real, mesclam fragmentos históricos, armazena e veicula percepções de tal forma que funde com a própria realidade. O “ouro verde” do século XIX agora é substituído pelo ouro moderno, a tão disputada informação. Muitos pretendem “fazer a América” neste ambiente novo. Mas é preciso saber “navegar”, atravessar o grande “oceano” que agora distingue os indivíduos conectados daqueles não conectados. Vivemos uma nova “monocultura”, que se mescla perigosamente ao mundo real globalizado. Nasce uma cultura planificada, sem fronteiras e, intencionalmente, com poucas regras. Tornamos, assim como nossos ancestrais imigrantes em Minas, internautas. Um novo “laboratório de gentes” se formou; agora em patamares e consequências inimagináveis.

Os rastros “imigratórios”, aqui e acolá, são “aparentemente” deletados, mas uma lista de desejos e de indesejáveis já se formou. O sistema sabe tudo de você, porque investiu para que estivesse com você. Mapearam seu “Stato di famiglia”. Agem como uma “Superintendência de Imigração”, coordenando, selecionando e registrando fluxos de ideias e mentes. Formou hospedarias, colônias e grupos. Alimenta as diferenças, se mostra solícito a todos, tudo a título da liberdade de expressão. O “ouro moderno” movimenta nossas vidas cotidianas, bancos, bolsa de valores, mercado de ações, nações, opiniões, com forte apelo motivacional. A moderna oligarquia mundial, com gigantesco poder de transformação, manipula este mundo virtual. Isto será sempre negado. É uma rede de “malha fina”, onde nada passa despercebido.

No ambiente virtual, a sensação é a de “ser imigrante”, ainda que não percebida ou admitida, a identidade “roubada”. A teoria do sardo Gramsci, com os conceitos de “hegemonia cultural”, é perfeita na definição desta “terra virtual”. O exemplo é bem atual. A oligarquia não se vale da violência para governar, mas sim de ferramentas culturais e ideológicas, que constroem o consentimento geral. A “hipnotização” dos internautas ocorre como no passado da colonização de Minas, sedução e falsa propaganda, que lhe rouba o tempo e os sonhos. Nas ruas, os “imigrantes” de hoje digitam avidamente seus celulares. São milhares de conectados, quase incomunicáveis no mundo real. A ordem é navegar. O celular, como as antigas ferramentas agrícolas, é indispensável ao pretenso moderno, ao entrosamento e ao posicionamento social. A ideia é sugerir um território “livre”, sem fronteiras. Nele é permitido entrar e sair a qualquer hora. Não se iluda, estamos num ambiente hipermonitorado. Maquinas praticamente “pensam” e registram os menores movimentos. Tudo é traduzido em estatísticas, tornando previsíveis os comportamentos, gostos e tendências. Subliminarmente, dia a dia, ocorre a desconstrução do indivíduo e das famílias.


Este internauta é conduzido à superficialidade, indivíduo sem fronteiras e sem raízes, um receptáculo de emoções dúbias, um mero prisioneiro, sem identidade. Nada difere daquele imigrante real do passado, que sequer deixou documentos ou foi sepultado como indigente. Muitas nações estarão em perigo entre os dois mundos, como reflexo de benesses e maldições em tempo real. A educação virtual é arrebatadora como uma onda, subtendida, informal e superficial. Quanto maior a extensão deste saber virtual, de rápido consumo, menor a visão em profundidade do seu ávido consumidor. E a navegação não pode parar; é frequentemente medida e comemorada por sua oligarquia. Nos consultórios médicos já chegam os primeiros náufragos doentes, “viciados” na navegação, são indivíduos sem fronteira e sem identidade. E mais uma vez, os imigrantes estarão abandonados e doentes nesta terra artificial, fazendo parte das novas estatísticas...


Crônicas do Sardo Mineiro

Vida de pastores

Na noite escura e distante do tempo, toda percepção é falha e mouca, mas os eventos fortes sobrevivem incólumes e tornam-se lendas adoráveis. Foi assim na aldeia feudal de Villasalto, no distante ano de 1240, quando a grande maioria das terras da ilha da Sardenha pertencia ao Reino de Arborea. A pequena aldeia possuia poucas casas, todas de pedras e acentuadas por ruas calçadas de pedras, iluminadas por archotes com óleo vegetal. Sua população não excedia a 500 residentes, que vivia da rudimentar agricultura, criação de cabras e domesticação de equinos e muares. A união de famílias fortes e bem articuladas no poder se faz presente neste tempo distante, como em outras partes do velho mundo. E não foi diferente nesta aldeia feudal no sul da ilha, incrustrada no meio do mediterrâneo. Giovanni de Bas Serra, rico banqueiro da época, entregara sua filha Vera Cappai a Mariano II, Rei da Ilha, unindo duas famílias abastardas que dariam poder e sucessão ao trono por mais de 300 anos. Com a união das famílias, as “Contas Villasalto Muravera” estavam nas mãos da “potente famiglia Cappai”, estendendo seu poder das terras altas de Villasalto, na região montanhosa de Gerrei, próximo ao Pico de Gennargentu até as terras baixas do litoral da antiga Muravera e atingindo as terras férteis do Rio Flumendosa. O casamento real e o foco no pagamento de impostos iriam alimentar conspirações, tão afins ao poder. À margem desta história real, o isolamento geográfico, a escassez de recursos e as doenças palustres dizimavam sem dó, seja quem for e onde estivesse. Pastores, reis e rainhas desta dinastia, rudes e valentes, tombariam pela “peste”.

O vento implacável assolava as oliveiras e plantas silvestres que insistiam em fixar no terreno rochoso, serpenteadas por odores do alecrim e tomilho que invadia as ruas semidesertas da aldeia. E dele ecoaria as cantigas dos sinos de cabras distantes, pastejando desinteressada e ritualmente nos vãos de rochas alvas, como tivesse a ninar os mais severos pensamentos. E certamente seria um bom condutor da melancolia das Launeddas de alguns pastores, que cobriria seu turno com o treino ou virtuose de suas flautas. Desta laboriosa excursão do “giorno di lavoro”, pastoreando o rebanho de cabras, culminaria no encantamento dos eventuais “Ballo sardo”, quando os universos masculinos e femininos estariam em efusivas danças na pequena praça. As Launeddas se juntarão aos tambores, chocalhos e ao canto polifônico dos pastores, que concorriam em busca dos quão potentes e melodiosos conseguiriam ser. Os homens estarão com suas melhores roupas de pele, barbas aparadas e bem dispostos ao “vino, formaggio e carni” e as mulheres em exuberantes vestidos coloridos e lenços bordados nas cabeças. E tudo que o vento leva, haverá sempre o odor da fumaça de suas fogueiras, ora fazendo o café e ora preparando seus intermináveis assados de “vittelo, pecoras, maiales e cinghiale”. Deste ultimo, o vento propaga o som de fortes estampidos na caça dos javalis, tão comum na densa floresta que circundava o vale. E toda esta cultura contada pelos ventos, simbolizada pelo pastoreio, fogueira, caça, launeddas, a dança e o canto, estão contadas nos afrescos e pinturas rupestres nas “Domus de Janas”, menires e rochas primitivas. Escapavam-lhes a dispersão aleatória do vento, enquanto respeitavam os registros nas rochas, como se as fadas realmente o fizessem.

 “Tzio” saiu cedo, antes do amanhecer na aldeia, para pastorear. O apelido lhe caia bem, porquanto era o tio solteirão, livre em suas convicções e grotesco em sua performance alpina. Suas roupas vinham das peles e lãs de seu rebanho. O calçado rústico e eficiente acompanhava a polaina de couro escuro, grosseiro e bem curtido, que o protegia das serpentes mais sorrateiras. A calça, mais que esconder as pernas e as partes pudicas, protegia de espinhos da severa vegetação. Um saiote de pele é sobreposto às calças, herança dos antigos sumérios e do império romano, aumentando-lhe a resistência. Sobrepondo a uma camisa de lã alva, presenteada pelas artesãs da família, seguia o colete e um turbante de pele, dando-lhe uma aparência rude e exuberante, impondo profundo respeito. Vestimenta que se complementava com a longa espingarda, que o acompanhava sempre, juntamente com o Coltello bem afiado. Após longo e rigoroso inverno, cuja neve deixou inacessíveis e impróprias várias áreas de pastejo, Tzio teria que andar por vários meses com seu rebanho. Não levava nada, a não ser seu conhecimento e experiência, juntamente com seus irmãos e outros pastores, que se apartariam em caminhos distintos e equidistantes, guiados pelos ventos e sons. As fortes mulheres aldeãs, “madonnas e ragazzas”, estavam de pé para ultima despedida antes de partirem, arremessando da boca fortes vapores na madrugada gelada, entremeada pelas falas tropeçadas e confusas, e adiante, dos gritos de despedidas.

Na ausência das mulheres, rodeado de ovelhas de cabras e poucos víveres, os pastores sobreviveriam ao final do inverno intenso. Procurariam para suas ovelhas um local com boa pastagem. Acercariam de suas “pinettas”, pequenas construções de pedra e cobertura de palhas em pontos estratégicos de outras temporadas e excursões. Feitas de chão batido e bem calafetadas, era equipada com um fogão de pedras com chaminé, onde seriam preparadas as refeições, geralmente composta de carne de caça, aves ou javalis, leite e queijo e, eventualmente, vinho ou grappa. Nas “pinettas” ao redor do fogo, tocando launeddas, cantariam loucamente, divertiriam com as aventuras do dia, curariam as feridas, jogariam “morra”, afiariam os coltellos e contariam piadas toscas e mundanas, longe do cerceamento das mulheres, assim por meses a fio. Da turma desta temporada, estava Carlo, Giacomo, Salvatore, Giuseppe, Pietro, Francesco, Giorgio, Efisio, Antônio e Gaspare, num total de dez pastores. O alvo das chacotas, “scherzo”, era Carlo e Giorgio. O primeiro ragazzo motivado pela fase “tropo caldo” de sua mocidade, sem namorada e sempre cercado de uma cabra em particular. O segundo inexperiente com a caça, ao esquivar-se de um javali enfurecido, apavorado em dar cabo do nervoso animal que partira sobre ele, deu um tiro no próprio pé. Ambos sobreviveram às brincadeiras dos pastores, que se divertiram na lida árdua e longa do campo. Alguns incidentes como ataque de raposas, ovelha perdida, cabra envenenada por uma nova erva digerida, ataque de serpente e tentativa de roubo motivariam as conversas. E toda conversa não deixaria o grupo tão revoltoso quanto à questão administrativa regional, quando tiveram que dar uma grande volta com o rebanho cansado para retomar antigo e costumeiro caminho, devido a uma ponte caída sobre o caudaloso rio.

Com tantos impostos que arrecadam dos agricultores e criadores, o que fazem pelo “paese” e o “popolo sardo”, a resposta é simples “una mierda di niente”. Nada produzem, apenas cobram. Não conservam os caminhos, não controlam as queimadas, não preservam as pontes, não combate os roubos frequentes nos rebanhos; mas sabem cobrar impostos. Retornando após meses ao relento, pastoreando e produzindo queijos e carne salgada, os pastores deveriam destinar parte da produção ou negociações ao feudo, que por sua vez repassaria parte ao Regno d’Arborea, numa ida sem volta. Mas havia uma esperança, após o casamento de Vera Cappai, filha do banqueiro, com o Rei Mariano II, o aragonês valente e poderoso de toda ilha. A união era promissora e poderia mudar toda história, em favor dos produtores rurais da pequena Villasalto e fariam uma belíssima história. Tzio trazia dentro de si a ambiguidade de sua atual postura, mantinha-se solteiro sem maiores preocupações ou casava-se, tendo que ambicionar-se a partir de então com a produção e os maledettos impostos que tiravam o sono dos casados. Mas quando pensava em Marianna, seus olhos brilhavam e toda preocupação era levada pelos ventos, embalada pelos sinos angelicais de um amor sem igual.

As pastagens alcançadas em onze dias de caminhada ainda estavam dentro das terras cedidas pelo Reino aos pastores. Não havia cercas ou marcos, mas a palavra, armas e sardos bravos para defendê-la. Se não fossem contestadas, poderiam ser usadas sistematicamente pelos pastores, até que tornassem posse e fossem cedidas pelo Rei, logicamente à custa de impostos. Mas se por mudança de humor ou preferência do Reino, as terras de divisa fossem cedidas a outro sem consulta da posse precária, pendengas seriam criadas e arrastariam por anos em brigas e chumbo. Visto que o prejuízo material e as mortes não as compensaria, uma das partes se retirava do pleito. Mas o espírito sardo é renitente e muitas terras foram conquistadas na valentia. Não obstante, a quantidade de terras media a valentia e o poder de seu dono. E quanto mais próximas de aldeias, maior valor teria. O fato de encontrarem a Pinetta de pé, organizada como deixada em períodos passados, era bom sinal de que não haveria confrontos ou contestações. Passariam por menires, mas estes não seriam marcos de posse, porquanto sabiam que eram primitivas manifestações de antigos druidas à Terra Madre, sábios místicos da antiguidade que equilibrava a energia do local. Veriam antigos Nuraghes de pedras e beneficiariam até dos poços d’água com laborioso acabamento lítico, mas estes também foram feitos milhares de anos atrás por antigas civilizações. Havia respeito dos pastores por estas obras antigas, jamais retirariam suas pedras para construir suas Pinettas, por mais fácil e perto que estivessem. Temiam antigas maldições.

E, em meio a estas questões de terra, um desgarrado macho espetacular e viril reproduzisse com suas cabras, poderia ser uma benção na melhoria do rebanho ou mesmo uma desgraça, caso o proprietário a reclamasse. Geralmente, parte da cria seria entregue ao dono, caso se apresentasse. As cabras eram bem distinguidas no rebanho, com sinos peculiares a cada dono e artesão; assim como os Coltellos, que uma vez vistos, saberia de que tribo ou região era a cabra ou pastor. Detalhes nas vestimentas também tinham este papel de identificação, o que poderia manter afastada uns do outros, dada a belicosidade e intensa ignorância deste ou daquele grupo. A mudança brusca do clima mediterrâneo, entre a neve e calor intensos em períodos nem sempre bem determinados, dava uma característica bipolar a estes grotescos pastores. Poderia passar do riso à agressão por simples mal entendido, por isto conversavam pouco com estranhos, como imperativo demonstrar do seu espaço e território. Mas com todo rigor do clima, constituía um dedicado e bom amigo. E em silêncio, agachado e observando sistematicamente o rebanho, cortava com seu inseparável Coltello pedaços de queijo bem curado e nacos de carne seca, mastigando-o profundamente em vigia aos próprios pensamentos...


Passados os meses, o que se via ao longe se assemelhava à visão grotesca da chegada do incrível exército de náufragos, levados pelo sabor dos ventos de outrora. Barbas imensas, cheiro de suor, grandes cargas nos baús nos lombos dos burros, o rebanho cabisbaixo e determinado a chegar à aldeia, os cães a latirem com força encorajada pela visão da aldeia, os pastores arrastando suas carcaças de cansados, enervados pelos pensamentos mais infames. Os enamorados na suspeita de que foram esquecidos e trocados por outrem. Os casados na suspeita de uma traição, depois de vários meses distantes. E tudo se desfazia, como num passe de mágica, com a primeira sensação do retorno, a volúpia do olhar, a anca desperta a rebolar na festa da chegada, o sorriso branco na face castigada pelo sol, os afagos e beijos desejosos, as crianças chorando de saudades e toda aldeia em festa. A ansiedade foi recíproca, cada qual cuidando de seus afazeres. A fartura estava garantida, enquanto os pastores produziam carne e queijos em terras distantes, as mulheres e crianças cuidavam das casas, teares e pomares. Ambos tinham histórias para contar, reunidas e compartilhadas com os ventos de Villasalto, nas terras altas de Gerrei...




Crônicas do Sardo Mineiro

RITUAL NO ALÉM-MAR...
                José Capaz – 25/01/2014


Ao mar, sonhos perdidos numa terra que fica,
Desaparecendo atrás das vagas ao som do vapor,
Inclemente, determinado, algoz e repleto de vida mecânica.
Sonhos em turbilhão, espremidos numa “pátria” ambulante.
Aos filhos dos sonhos, a colheita certa da terra perdida,
Aos filhos dos sonhos, a promessa da colheita farta e certa.
Oh! América, que dos véus brancos nos remetem a seus frutos, o café,
Seus “Nuraghes” são como torres verdes, desdobrando serras,
E suas pedras de divisas sulcam fronteiras entre homens e lavouras,
Em grande extensão de terras e lutas...


O canto da harmônica veio da nave até a serra “di mio lavoro”,
Regurgita velhos pensares no acalento de uma nova alegria,
Candura e vaga lembrança, levada ao vento como a primavera.
E quando acordar deste tempo, sem dores lombares, sem anseios,
Estarei, não de volta à nave e nem ao passado da Ilha Perdida,
Mas estarei impregnado na semente, no solo e no ar desta terra,
Imigrante sardo, enterrado em terras distantes, filho suado e cansado,
Agricultor, amante, pai, escultor, carpinteiro, pedreiro e espírito.
E de tudo que foi e partiu, a história se mistura a tantas outras,
História de fole, acordeon de poesia e contos, do ir e vir, repetir;
Constrói, destrói, refaz, anima e repensa esta pátria bendita.


Além-Mar, Além-Terra, Além-Vida,
Ninguém há de morrer em vão nesta Terra de todos,
O trabalho é uma vida, completa outro, uma simbiose sem fim,
Imigrante nascemos, quando aqui aportamos,
Imigrante seremos, quando daqui aportamos.
E esta grande nave, errante no espaço de ondas, segue um rumo,
No instante em que quatro mouros nos observam:
A família que nos acompanha,
O pensamento e suas estações passageiras,
A fé em dias melhores e
O vazio de estar em uma terra distante.
E, diante deste “mistério nurágico”, se perpetua o rito à ancestralidade,

Não há documentos; apenas a dispersa, intrigante e tênue história...



Crônicas do Sardo Mineiro

Pêndulo sardo
                          José Capaz – 10/12/2015


Gira o mundo, gira terra e mares,
O tempo inclemente de meus dias gira incessante.
Que será deste tempo passado, devorado por este engenho?
Mundo pêndulo, que será do tempo porvir?

Gira a mente, gira as ideias e anseios, pombas!
Devo pensar no girar dos dias e sua eteriedade radiestésica.
Haverá um equilíbrio cósmico, onde sou sua célula?
E ao pó que retornarei, em turbilhão, nesta fatalidade cíclica!

Gira a vida, a semente que nasce, morre e renasce persistente.
Draga para si os esquecidos, ato falho, porque o Criador nos protege.
A grande civilização de resetados, velhos e esquecidos, deste mundo ancião.
A roda da vida gira e recria em colapsos e colisões, em nome da liberdade.

Gira as ondas e marolas arrebentam nas rochas da Sardenha.
Alegre coração envolto a fragmentos e poeira do tempo.
Gira a chave do tempo, o segredo deste espírito sem fronteiras,
Este pequeno átomo sobrevivente traz sentido resiliente a vida.

Gira prazerosamente gerações e gerações na mente cansada e confusa.
Anseio pela comunhão dos dias, ideias, ondas, rochas e cacos.
Desejo arqueologicamente meu espírito druida na terra dos Nuraghes,

Porque está escrito, pêndulo sardo, um dia o filho a casa retorna...



Crônicas do Sardo Mineiro

50 anos para descobrir...
                      José Capaz – 31/01


Nasci em terras distantes, longe da terra natal,
Vazio d’alma de uma terra que não conheci,
Mas cultivo a energia de viver nova vida, além-mar.
Lembranças se formam, misturadas a sentimentos díspares,
Alegre, encontro velhos e amarelos documentos,
Eta! tristeza resignada, do tempo perdido e do anseio da procura.
Acaso sou Giuseppe, acaso sou Antônio, acaso será apenas eu,
Quanta trama, no fundo da alma que não cessa de perguntar,
E que às vezes se cala, emudece pela temporalidade da escolha.
Sono sardo, mi sono perso, perso come un bambino.

Acaso espera o tempo?! Farei retornar a esta terra jamais experimentada?
Que registros há neste solo, que me atrai como o imã a limalha,
E quão grande é a distância que nos separa dos sonhos.
Oh! Deus, que mosaico virou a vida, quando as raízes afloraram,
Quando poucas respostas vieram pela insistência de seu servo,
Rasgando a terra que parecia firme, convicta, agora fértil de indagações.

Sempre gostei do mar, de navegar, da pesca e da brisa,
Que diria as palmeiras dançando ao vento, no frescor arrancado pelo olhar,
Do cantar das águas do rio, que desaguava no espírito irrequieto,
E o lavrar da madeira metamorfoseando-se em “mamutones”,
Horas martelando a madeira, criando vida.
E lá estava ela, a ilha que concentrava no coração, do esquelético ser,
Agora preenchido pela descoberta de que não era um ser isolado,
Este minúsculo ser perdido no nada, na complexidade do nexo,
Mas sim era a ilha que habitava no mais profundo de minhas memórias,
E assim, nas entranhas do DNA, dos Memes, no borbulhar dos pensamentos,

Está a ancestralidade sarda que atravessou o mar...



Crônicas do Sardo Mineiro

A CHAVE DO TEMPO

Em sonho, veio uma revelação inesperada, através do Anjo dos Pastores sardos. Da longínqua Criação do mundo veio uma herança maior aos homens, a chave do tempo. Não era uma arca, não era de ouro, um troféu, nenhuma tradição oral, nada de pedras ou ervas sagradas, mas o divino som dos sinos. A sua perfeita afinação é a chave do tempo. E o vento que leva seus segredos, pode trazer de volta o ressoar dos tempos, como o ir e vir das ondas. Tem o som do Universo, do equilíbrio e da Criação do Mundo. Tem o segredo dos tempos passados e a sintonia com o futuro.

São muitos os sinos e suas finalidades. Os sinos das naves ao mar e aqueles que guiam nos faróis em tempos ruins. Os sinos dos Nuraghes, da idade do bronze. Os sinos das igrejas e o anúncio do sagrado. O sino fúnebre. O sino do natal, anunciando a Boa Nova. O sino da contemplação budista ou tibetana. Sino dos Ventos alertando os tornados. O Sino do garçom, saindo o prato perfeito, a hora da degustação.  O Sino da portaria do hotel para a chegada do hóspede. O Sino da cultura dos Mamuthones. Os Sinos de alerta das Cabras aos pastores. O sino que aportou junto com as caravelas, na fundação de Pindorama, em terras distantes da Sardenha. Ressoa a partida, a promessa, a chegada, a alegria, distribuindo bênçãos.

Sete por cento da população convive com um zumbido nos ouvidos, um tal “Tinnitus”. Não tem causa mecânica ou clínica, vão e vem sem motivo qualquer, sem ter qualquer remédio que o encerre definitivamente. Há cerca de cinco anos, muito incomodado pelo zumbido e após uma leva de antibióticos sem nenhum resultado, fui a um médico de nome Wilson, mineiro de Pouso Alegre e a resposta que tive dele foi que: “...enquanto falava do seu zumbido, acabou de alertar o meu”. E concluiu que era normal, era só não preocupar com ele, desencanar, que ele partiria como veio. Então, comece a pesquisar também, assim como fui instigado. Chegará em 432 hertz, frequência do Universo, o zumbido primordial. Surpreenda com a “Afinação de Verdi”, o compositor italiano que sintonizou em suas composições nesta frequência. Se adentrar o campo místico, se encantará pela Terapia dos Sinos, principalmente na cultura oriental.


Em 1821, em Cagliari, Ilha da Sardenha, o construtor Raffaele Cappai reformou o sino da igreja barroca. Em 1969, o módulo lunar da Missão Apolo 12 foi arremessado na lua e ela soou como um sino por oito minutos, gerando até hoje um enigma para os cientistas. Em 1978, na época seminarista, toquei o sino da Catedral de Leopoldina e fascinei pelo ressoar sagrado dos sinos. Em 1986, maravilhei com o repicar contínuo dos sinos na Semana Santa em Ouro Preto. Em 2 de Abril de 2005, os sinos repicaram no mundo todo pela morte de João Paulo II. Hoje, me divirto no quintal de casa fazendo Sinos de Vento e escutando suas diversas entonações na passagem dos ventos. Viajo na parte de minha alma, dos pastores ancestrais, que escutava suas cabras ao largo. Quantas histórias e recordações trazidas no ressoar dos sinos, se revelando a “chave do tempo” dita pelo Anjo dos Pastores Sardos...

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Família Cappai - Registro Fotográfico

Registro fotográfico de parte dos descendentes de Raffaele Cappai, em Leopoldina, na Zona da Mata Mineira, em Julho de 1982, há 35 anos. Este registro se deu 85 anos após o raro ingresso dos sardos em Minas Gerais.


Esquerda para direita:  Edna Lúcia, Daniella Maria, João Batista e José Capaz (Netos de Raffaele, representando a segunda geração de sardos nascidos no Brasil), seguido de João Capaz de Oliveira (Filho de Raffaele, representando a primeira geração de sardos nascidos nos Brasil) e Lêda Maria Campos Capaz, a segunda esposa de João Capaz.


João Capaz de Oliveira apresentando sua família, em Leopoldina de 1982. Aposentado do DER - Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais, está hoje com 83 anos, é portador de Alzheimer e reside em Juiz de Fora.


Foto de meu nonno Raffaele Cappai (Nome no Brasil, Rafael Capaz), sepultado em Leopoldina, MG, em 1963. Filho de Giuseppe Cappai e Maria Annica Gessa, ambos nascidos em Villasalto, sul da Ilha da Sardenha, Itália.