Em comemoração ao Dia Nacional do Imigrante Italiano, tomei um vinho tinto com queijo curado. Tenho muito a agradecer, também comemorar. Mais do que italiano, sinto na veia a origem sarda. IO SONO SARDO. Descobri as raízes de minha família, como meu presente de 50 anos. A história quis assim, que a descoberta maturasse como a uva até chegar ao vinho. Então, na convicção dos dias e na descoberta de um novo tempo, comemoro meu renascimento como um novo ser, um homem sardo.
Como quem renasce para uma nova realidade, pesquiso os costumes, a história e o modo de viver de meu distante povo. Meus olhos estão animados pelo azul turquesa do mar, das montanhas de Gerrei e acerca do povo sardo e suas histórias. Navego pelas fotos antigas e as paisagens novas, como quem degusta o bom vinho. Pergunto às paginas da internet, ávido de respostas e semelhanças, como uma criança que quer saber de tudo ao mesmo tempo. Tenho gosto de aprender. Tenho meu tempo para aprender. E tenho muito a comemorar as aventuras das tantas descobertas. Ora, sou um arqueológo, colecionando fotos e histórias da civilização nurágica. Ora, sou um capricultor, pesquisando a vida de pastores. Ora, sou um antropólogo, vasculhando costumes antigos. Ora, sou descendente da rara imigração de sardos. Ora, sou sardo, escutando o hino sardo e vertendo lágrimas de emoção nas estradas. E neste renascimento, absorvido numa alegria sem fim, percebo que renasci para um novo tempo, porque agora eu tenho realmente uma história e uma identidade. Na procura de meus ancestrais por um novo tempo, descobri agora que sou autor deste novo tempo, até retornar ao berço de minha história.
Agradeço a Deus e a São Miguel Arcanjo pela coragem de meus ancestrais sardos.
Agradeço a decisão da travessia do Atlântico no Vapor Equitá em 1897, motivo de minha existência e de toda a família no Brasil.
Agradeço pelo afloramento de minha história, numa fase de bom discernimento e deleite.
VIVA O "DIA DO IMIGRANTE ITALIANO"!
VIVA AOS SARDOS E TODAS SUAS HISTÓRIAS!
Um brinde a todos que fizeram e fazem a história deste país melhor.
domingo, 22 de fevereiro de 2015
O Alzheimer na vida dos anciãos sardos.
A
Sardenha sofre hoje com o envelhecimento progressivo de sua população e também
com o aumento dos casos de demência. Dois
terços da população anciã sarda porta a doença de Alzheimer, doença
degenerativa do sistema nervoso central, que faz com que os idosos fiquem totalmente
dependentes.
O
Alzheimer é acompanhado de sintomas cognitivos (perda de memória, desorientação e confusão) e, muitas vezes, por
sintomas comportamentais (agitação,
agressividade, vagando, insônia, recusa para alimentar, alucinações, delírios,
desinibição sexual). Estes sintomas são as principais causas de estresse
para os familiares e as instituições que cuidam desses idosos.
Minha
família descobriu recentemente os sintomas do Alzheimer no meu pai, com 81
anos. Ele faz parte da primeira geração de sardos no Brasil, esta rara
imigração no Brasil e nas Américas. Como bom sardo que é, tem uma saúde de
ferro (poucas vezes tomou medicamentos) e irá viver bastante. Guarda em seus
relampejos de memória, fragmentos do meu avô imigrante e sua família, Raffaele
Cappai, que também registro aqui como forma de fragmentos. Decerto, as
pinceladas da história retrata bem a difícil vida dos imigrantes sardos nestas
terras distantes.
Leio nas entrelinhas das conversas com meu pai, a transmissão
oral e genética de uma Sardenha distante: as casas, o modo de viver, o gosto
pelo trabalho e um jeito peculiar do sardo. Então, vamos ao que meu pai fala do
passado:
“Meu pai Rafael, falava
pouco. Era enérgico. Eu pouco o entendia, era uma língua estranha. Era muito humano,
gostava de ajudar as pessoas...”
“Meu pai me ensinou
muitas coisas. Fazia questão de me ensinar ofícios, como trabalhar a madeira,
fazer uma cerca e construir uma casa. Gostava de ferramentas e esculpir bois e
carros de bois na madeira. Fazia isto até na casca de abóbora, enquanto
descansava. Dizia para mim, que o saber não ocupa lugar...” – Coisas de pastores sardos.
“Foi dito a mim que de
onde eles vieram (Sardenha), as casas eram todas de pedras. A família tinha
terras lá e muitos pés de uvas. Minha tia, a Maria, que morreu no Asilo de
Leopoldina, não tinha um olho desde pequena, porque furou com o galho da
videira...”
“Meu pai Raffaele fazia
polenta, macetava e colocava no embornal. Amassava com as mãos e comia de vez
em quando com carne de porco e torresmo. Assim passava o dia trabalhando em
silêncio...”
“Doutor, carne de
leitoa é fortificante...” – Encurralados pela invasão, os
sardos se concentraram nas terras do interior da ilha. Muito pouco ia ter no
litoral, onde estavam os invasores, por isto não interessaram pelos frutos do
mar. Historicamente, caçavam javalis e consomem até hoje muito, muito mesmo,
carne de porco. Se falar em leitoa, meu pai é 100% sardo.
“Quando vocês eram
pequenos (meu pai conversando comigo) tinha vontade de ter uma carroça pequena
puxada por um bode. Fiz isto e ficou muito bonito. Também tive um cachorro, mas
ele mordeu seu irmão, quando era pequeno, então o dei para outra pessoa cuidar.”
– Rebanho caprino e cães fazem parte do cotidiano dos
pastores sardos. Herdamos um gosto no passado.
“Esta igreja, aquele
mercado e algumas casas deste vilarejo (São Lourenço, perto de Leopoldina)
foram construídos pelas mãos de meu pai Rafael. Vinha a cavalo da cidade até
aqui. A casa onde nasci está firme até hoje. Os italianos são fogo. Trabalhou
muito...”
“Italiano morre de
pé...” “Vou ficar para apagar a luz, não tenho pressa de morrer”. - Convicção de descendente de imigrantes, para dizer que italiano não dá
o braço a torcer nem para a morte.
“Estou fechando a
dispensa com cadeado, porque estão roubando alimentos. Também as janelas,
porque há bandidos por toda parte”.
- Enxergo
este delírio de meu pai, 81 anos, como uma síndrome do imigrante em terras
estranhas, aflorada pelo Alzheimer.
“Não escute o que ele
está dizendo...” – Palavras do pai, quando um amigo dele chegou
perto de nós, quando eu tinha cerca de 14 anos e disse que meu pai era um
capeta de arteiro.
“Mas que merda, não
posso falar merda...”
- Ao corrigir meu pai pelos palavrões
proferidos aos 80 anos, uma reação bem à italiana.
“O homem vale o que tem
no bolso...” – Palavras de meu pai, quando eu saí
de casa pela primeira vez, para estudar fora. Eu nunca esqueci. Será que isto foi
dito pela família durante a travessia com o vapor?
“Dez
por cento do que ganhamos devemos
guardar e não se esqueça do dízimo da igreja...” – Receita
de sardo religioso e precavido.
“Reze para São Miguel
Arcanjo, ele vai lhe proteger...” –
Meu pai sempre me aconselhou, mas ele
nunca soube, e só recentemente fiquei sabendo, estávamos falando do padroeiro
de Villasalto, a pequena cidade sarda de 1.140 habitantes, de onde veio nossa
família.
Recentemente, li o livro "A ILHA DOS ANCIÃOS", de Ben Hills, que aborda "Os segredos dos centenários da Sardenha", da Editora Prumo. Enxerguei nas linhas deste livro muito da vida dos sardos e até meu pai, compreendi o estilo de vida simples e bem focado de meus ancestrais sardos. O que pode ser corrigido? O que pode ser evitado no sofrimento? Nada, apenas curtir, deixar-se viver, bem ao estilo sardo...
Meu pai, filho de Raffaele Cappai, e seu inseparável salaminho italiano.
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Uma oração "italiana", muito especial.
"A Oração da Paz, também denominada de Oração de São Francisco, é uma oração de origem anônima que costuma ser atribuída popularmente a São Francisco de Assis. Foi escrita no início do século XX, tendo aparecido inicialmente em 1912 num boletim espiritual em Paris, França.
Em 1916 foi impressa em Roma numa folha, em que num verso estava a oração e no outro verso da folha foi impressa uma estampa de São Francisco. Por esta associação e pelo fato de que o texto reflete muito bem o franciscanismo, esta oração começou a ser divulgada como se fosse de autoria do próprio santo.
No Brasil mais antiga versão conhecida desta oração é publicada em Anais da Câmara dos Deputados do Brasil em 1957."
FONTE: Wikipédia
Palavras à "Donna" italiana; a "moglie" de nossas vidas.
QUAL O SENTIDO QUE TEMOS DE NÓS MESMOS???
Provar que somos homens valentes?
Somos fortes e inabaláveis, como
defensores da “ilha paraíso”?
De que somos bravos até o ultimo
momento, no bom estilo que “italiano que
é bom, morre de pé”? Que homem, mesmo agredido, não chora? E quantas foram
as agressões em toda a imigração... Que as perdas devem ser contidas por
fortes muros de pedra, para impedir novos invasores, como centenas de nuraghes por toda vida? Será que
resistirão até o ultimo instante? Quem sabe inconscientemente seremos um
sardo sempre armado, à espera de sua caça ou guardando o rebanho? Até onde
permaneceremos tão rudes.
Penso hoje que somos um pouco de tudo
isto, mas não teríamos humanidade, se não fossem as mulheres em nossas vidas. Este é o maior teste que Deus deu ao
homem, a de ter uma companheira em nossas jornadas. EU PODERIA ANDAR PELO VALE DA MORTE,
mas se tenho a companheira ao lado, tenho coragem para enfrentar. Lembre que na
“louca” decisão de Giuseppe, o sardo, tinha a Maria Annica para atravessar um
grande mar e tempos difíceis. E assim se deu várias vezes depois com outras
famílias de nossas origens, em outras Cidades e Estados: Abaíba, Providência, Leopoldina, Nova Venecia, Boa Esperança, Castelo, Cariacica, Cachoeiro do Itapemerim,
Vitória, Rio de Janeiro, entre outras.
Que reverência
estaremos dando às nossas matriarcas, quantas Marias, sem as quais não
existiríamos? Que respeito e gentileza estamos dando
à mãe de nossos filhos?
Que homens teríamos tornado se não
fossem as mulheres? Seríamos perversos? Seríamos animais?
Estaríamos perdidos para sempre? Este ponto é importante nas nossas
vidas, saber conviver com as mulheres. Porque, se elas são simbolicamente parte
de nós, a ponto da Bíblia citar que saiu de uma das nossas costelas, interessa
A Quem as criou que cuidemos bem delas. Isto é fato. E esta é nossa prova final. Não podemos perder a paciência, a
ponto de rebaixar e depreciar a maior obra de Deus. É pelo interior das mulheres que o
milagre da vida se propaga.
Voltamos a nosso exemplo. Giuseppe
poderia vir só, tentar a vida na América. Muitos vieram, até clandestinos e
morreram sem nunca terem retornado. Eu não teria existido, nem meu pai, muito
menos nossas famílias. Mas Giuseppe veio e trouxe Maria, e trouxe sua família.
Sabe por que? Porque
o maior santuário de um sardo autentico é sua família. E a “madonna”, mãe de Jesus, está
personificada na mãe, que é o esteio da família. Giuseppe, pai de Raffaele, não
veio só, porque era uma família, como nós. Podemos não concordar, mas é preciso
respeitar. E pela concordância e respeito, José e Maria (tradução em português) vieram para o Brasil.
E esta tem sido “minha bíblia”, a
história dentro da história familiar. Passo todos os dias, buscando conhecer o
rosto de meu bisavô Giuseppe e bisavó Maria Annica, uma missão de vida e de
total reverência a nossos ancestrais. Imagine a situação: Giuseppe teve uma visão de que deveria pegar a família e seguir outros
para uma tal América. Rezou e Deus deu-lhes força para convencer Maria, porque
acreditava que a crise no seu país iria massacrar a todos. MAS SE GIUSEPPE fosse
temeroso de viajar e renitente como meu pai João Capaz. É simples, não existiríamos aqui
para conversar sobre genealogia. E graças à Maria Annica, esta grande mulher
e minha bisavó, que aceitou a empreitada da imigração, trouxe no colo o meu pequeno avô
Raffaele. Assim a vida germinou em terras brasileiras...
Os sardos são um povo com milhares de
anos. A raiz de nosso sobrenome Cappai aponta para o judaísmo na Sardenha, com
origens bíblicas, naquele povo que caminhou pelo deserto (Gabbaj) na tribo de Benjamim. Isto pode confirmar que somos de
origens rudes, muito antigas e estamos procurando pela terra prometida há
muitas e muitas centenas de anos. Não podemos ficar perdidos tanto tempo assim.
Já estamos conscientes demais de nossos papeis, por isto, procuro refazer e
entender a história familiar. É preciso buscar meios de unir a família, num grande encontro de gerações, esta é a missão...
Consegui reestabelecer parte do elo da
corrente, rompida pelo tempo, mas a pesquisa continua. A leitura desta história
precisa avançar e ser repassada aos nossos descendentes. Em algum tempo ou
lugar, terá outro José ou Maria, meus descendentes, para trilhar estes caminhos.
Não posso ficar surdo e mudo diante da história, porque sinto uma obrigação
visceral pela pesquisa da história familiar. Em tudo que fazemos, SOMOS DEUS EM
AÇÃO, porque fomos criados à sua imagem. Negar a história é negar a própria
identidade.
Passei a bendizer tudo que me
aconteceu, agradeço a vida que levo, o passado que tive e a vida que poderei
ter futuramente. A criação de Deus está no ar que respiro, na água que me
serve, no barulho do riacho, nas nuvens, no sorriso, no semblante do próximo,
na palavra amiga, na gentileza, na vivência do mundo, no etéreo, na
espiritualidade e na crença de uma nova etapa na vida. Alguns viajam de
bicicleta, outros de moto, de ônibus, de carro de luxo ou de avião, seja de
qualquer forma, mas todos chegarão lá. Alguns fazem caminhos tortos e
complicam, demoram, mas chegam também lá. Serão negros, brancos ou amarelos;
podem ser drogados, prostitutas ou ladrões, mas chegarão lá. Lembro-me que
Jesus perdoou dois ladrões, crucificados a seu lado, para dizer que não podemos
ser preconceituosos, não jogar pedras. Muito da nossa história familiar ficou
para sempre perdida, por conta de preconceitos, como na maioria da história das
famílias. É importante perdoar o passado e construir uma nova história. A austeridade já
fez muitas vítimas e distanciou pessoas. É preciso ser paciente e tolerante com
nós mesmos. Este é meu entendimento pessoal de ser Cristão.
Saudações à todas as mulheres da família e a meus ancestrais sardos, imigrantes e corajosos. Amém.
Um passeio de carro pela Cordilheira dos Andes, além da fronteira, em 2012.
domingo, 4 de janeiro de 2015
Palavras ao meu pai sardo-mineiro - Parte III
TRANQUILIZA
SEUS PENSAMENTOS E SEU CORPO, porque venceu o bom combate.
A morte chega a todo vivente, e não se
deve resistir e cultuar o corpo, é apenas um empréstimo. Somos espíritos com experiência de
corpo, como diz os preceitos da velha religião na Sardenha.
Não devemos torturar com pensamentos e
rancores em vão, quem nos acompanha a jornada. As inquietações do velho combatente
devem ser estancadas, porque um novo tempo há de vir.
Toma como exemplo os centenários desdentados
da Sardenha, com o riso maroto no rosto. As rugas dos sofrimentos não apagaram
a singeleza e a tranquilidade de suas almas.
Pelo contrário, tomam seu vinho,
caminham ao sol, conversam nas praças e são amigos entre si. Os geneticistas estudam o DNA dos
velhos da Sardenha para saber por que vivem tanto.
Após ler e comungar pensamentos
ancestrais, posso dizer que entenderam o sentido da vida. Nossos ancestrais Giuseppe e Maria,
Raffaele e irmãos, não morreram. Está aqui nestas palavras.
Creio que voltaram juntos para a ilha,
a que todos os residentes chamam de “ilha paraíso”.
A ilha de nossos ancestrais reporta à
antiga Atlântida, uma terra de grande energia concentrada. Historicamente, foi repetidas vezes
invadida por bárbaros e protegida bravamente pelos sardos.Quantas vezes nosso “paraíso” interno,
o equilíbrio pessoal é invadido ao dia? Uma bárbarie. E quantas vezes, esta invasão, clama
pelo ideal de termos a família, toda unida perto de nós?
Giuseppe e Maria sonharam um dia em
ter uma fazenda para toda família, gravado em nosso DNA. Uma comunidade agrícola
autossustentável, que você sonhou e eu também sonhei, uma utopia.
Mas hoje temos a missão de perpetuar a
história, a saga da família Cappai.
Palavras ao meu pai sardo-mineiro - Parte II
ACALMA ESTE CORAÇÃO VALENTE, DE DESCENDENTE SARDO, MEU PAI.
Uma origem distante, das terras milenares da Sardenha, uma veia além-mar.
O gosto por ferramentas, o lavrar da
madeira e o erigir sistemático de obras reais e fantasiosas.
Sulcado na alma a ferro e fogo, a
valentia e o sonho de espíritos inquietos, sem fronteiras.
Rude nas origens do “popolo sardo”,
homem do campo, construtor e semeador.
Errante protetor da família, solitário
e resistente criador de ovelhas, afastando lobos e fantasmas. Incompreendido em sua forma bruta,
como animal enjaulado e solto em terras estranhas.
Giuseppe Cappai, um homem da ilha que
enfrentou o mar, simplesmente José. Maria Annica, uma mulher forte com
seis filhos, que seguiu seu marido, simplesmente Maria. O casal José e Maria, nomes de nossa
origem, apontam nossa fé e destino comum.
Na leitura desta raiz comum está nossa
existência e nosso fim, a reflexão da própria vida. José e Maria pensavam retornar à ilha,
mas morreram sardos em terras brasileiras. Seus filhos dispersos lutaram para
atenuar a maior apunhada ao homem do mediterrâneo. A perda do elo familiar, cuja base é
Maria, falecida cinco anos antes do casamento de Raffaele. E por falar em Raffaele, nome de anjo;
o padroeiro de Villasalto é Arcanjo Miguel, nosso protetor.
São estas histórias que encouraçam
nossos corpos na batalha, como cristãos nesta terra.Somos uma igreja viva, regida pela
esperança e o descanso em uma terra prometida. Nossa história não tem pedras
erigidas, nem cadeados e grilhões, é a face da liberdade e do sonho.
Giuseppe e Maria, Raffaele e seus
irmãos, passaram. Assim como nós, voltaremos a terra.
Palavras ao meu pai sardo-mineiro - Parte I
SOSSEGA
SEU CORAÇÃO MEU PAI,
que o tempo é para refletir.
Não é tempo de preocupar com os filhos, que bem formados e instruídos estão.
O passar das horas são dádivas de um
Pai maior, aos filhos maduros e aprendizes.
De todas as lições da vida, ainda que
o peso seja implacável aos ombros, ainda está em curso.
Pense que os maiores bens e conquistas
são interiores e este ninguém os leva, senão tu.
Que mesmo os faraós que se fecharam em
tumbas, tiveram seus profanadores com o tempo. Este tempo terreno e suas matérias são
irrelevantes e inexpressivos comparados à alma.
A alma generosa e com a vida em oração
não se deteriora e nem se apega a este mundo.
É vero! Deste mundo nada se leva, mas
quanta energia e tempo gastamos com esta matéria.
O passar das horas, nesta batalha
entre o surgir e o partir, são glórias e momentos de solidão. Nascemos sozinhos e partimos na
solidão, porque somos projetos individuais de uma Grande Obra.
Eis que chega um momento que é
desgarrar-se deste mundo, fato incompreensível a muitos. As paredes que nos abriga, um dia
serão ruínas e lembranças familiares. Muitos dos infortúnios e martírios
serão para sempre apagados, porque são ultra pessoais.
Quem é João? Que passou Rafael? Onde
anda Giuseppe? A quantos importam tais respostas.
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Meu pai João Capaz de Oliveira, filho de Raffaele Cappai, tem hoje 81 anos de idade hoje. É forte, muito ativo no dia-a-dia e uma memória oscilante. Tem mania de fechar tudo com chave e cadeado. Adora uma conversa. Dorme tarde e acorda de madrugada para fazer café. Tem um pequeno santuário em casa, onde reza todas as manhãs. É ministro da eucaristia, mas afastou um pouco por conta da saúde. Teve renovada recentemente sua carteira de motorista, mas por lapsos de memória e "apagão", os filhos pediram para não dirigir mais. Como bom descendente sardo, irá viver mais, sempre atento às histórias da Sardenha e dos ancestrais. Ao meu pai, dedico minhas atenções literárias e leituras...
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