quinta-feira, 27 de abril de 2017

Crônicas do Sardo Mineiro

RITUAL NO ALÉM-MAR...
                José Capaz – 25/01/2014


Ao mar, sonhos perdidos numa terra que fica,
Desaparecendo atrás das vagas ao som do vapor,
Inclemente, determinado, algoz e repleto de vida mecânica.
Sonhos em turbilhão, espremidos numa “pátria” ambulante.
Aos filhos dos sonhos, a colheita certa da terra perdida,
Aos filhos dos sonhos, a promessa da colheita farta e certa.
Oh! América, que dos véus brancos nos remetem a seus frutos, o café,
Seus “Nuraghes” são como torres verdes, desdobrando serras,
E suas pedras de divisas sulcam fronteiras entre homens e lavouras,
Em grande extensão de terras e lutas...


O canto da harmônica veio da nave até a serra “di mio lavoro”,
Regurgita velhos pensares no acalento de uma nova alegria,
Candura e vaga lembrança, levada ao vento como a primavera.
E quando acordar deste tempo, sem dores lombares, sem anseios,
Estarei, não de volta à nave e nem ao passado da Ilha Perdida,
Mas estarei impregnado na semente, no solo e no ar desta terra,
Imigrante sardo, enterrado em terras distantes, filho suado e cansado,
Agricultor, amante, pai, escultor, carpinteiro, pedreiro e espírito.
E de tudo que foi e partiu, a história se mistura a tantas outras,
História de fole, acordeon de poesia e contos, do ir e vir, repetir;
Constrói, destrói, refaz, anima e repensa esta pátria bendita.


Além-Mar, Além-Terra, Além-Vida,
Ninguém há de morrer em vão nesta Terra de todos,
O trabalho é uma vida, completa outro, uma simbiose sem fim,
Imigrante nascemos, quando aqui aportamos,
Imigrante seremos, quando daqui aportamos.
E esta grande nave, errante no espaço de ondas, segue um rumo,
No instante em que quatro mouros nos observam:
A família que nos acompanha,
O pensamento e suas estações passageiras,
A fé em dias melhores e
O vazio de estar em uma terra distante.
E, diante deste “mistério nurágico”, se perpetua o rito à ancestralidade,

Não há documentos; apenas a dispersa, intrigante e tênue história...



Crônicas do Sardo Mineiro

Pêndulo sardo
                          José Capaz – 10/12/2015


Gira o mundo, gira terra e mares,
O tempo inclemente de meus dias gira incessante.
Que será deste tempo passado, devorado por este engenho?
Mundo pêndulo, que será do tempo porvir?

Gira a mente, gira as ideias e anseios, pombas!
Devo pensar no girar dos dias e sua eteriedade radiestésica.
Haverá um equilíbrio cósmico, onde sou sua célula?
E ao pó que retornarei, em turbilhão, nesta fatalidade cíclica!

Gira a vida, a semente que nasce, morre e renasce persistente.
Draga para si os esquecidos, ato falho, porque o Criador nos protege.
A grande civilização de resetados, velhos e esquecidos, deste mundo ancião.
A roda da vida gira e recria em colapsos e colisões, em nome da liberdade.

Gira as ondas e marolas arrebentam nas rochas da Sardenha.
Alegre coração envolto a fragmentos e poeira do tempo.
Gira a chave do tempo, o segredo deste espírito sem fronteiras,
Este pequeno átomo sobrevivente traz sentido resiliente a vida.

Gira prazerosamente gerações e gerações na mente cansada e confusa.
Anseio pela comunhão dos dias, ideias, ondas, rochas e cacos.
Desejo arqueologicamente meu espírito druida na terra dos Nuraghes,

Porque está escrito, pêndulo sardo, um dia o filho a casa retorna...



Crônicas do Sardo Mineiro

50 anos para descobrir...
                      José Capaz – 31/01


Nasci em terras distantes, longe da terra natal,
Vazio d’alma de uma terra que não conheci,
Mas cultivo a energia de viver nova vida, além-mar.
Lembranças se formam, misturadas a sentimentos díspares,
Alegre, encontro velhos e amarelos documentos,
Eta! tristeza resignada, do tempo perdido e do anseio da procura.
Acaso sou Giuseppe, acaso sou Antônio, acaso será apenas eu,
Quanta trama, no fundo da alma que não cessa de perguntar,
E que às vezes se cala, emudece pela temporalidade da escolha.
Sono sardo, mi sono perso, perso come un bambino.

Acaso espera o tempo?! Farei retornar a esta terra jamais experimentada?
Que registros há neste solo, que me atrai como o imã a limalha,
E quão grande é a distância que nos separa dos sonhos.
Oh! Deus, que mosaico virou a vida, quando as raízes afloraram,
Quando poucas respostas vieram pela insistência de seu servo,
Rasgando a terra que parecia firme, convicta, agora fértil de indagações.

Sempre gostei do mar, de navegar, da pesca e da brisa,
Que diria as palmeiras dançando ao vento, no frescor arrancado pelo olhar,
Do cantar das águas do rio, que desaguava no espírito irrequieto,
E o lavrar da madeira metamorfoseando-se em “mamutones”,
Horas martelando a madeira, criando vida.
E lá estava ela, a ilha que concentrava no coração, do esquelético ser,
Agora preenchido pela descoberta de que não era um ser isolado,
Este minúsculo ser perdido no nada, na complexidade do nexo,
Mas sim era a ilha que habitava no mais profundo de minhas memórias,
E assim, nas entranhas do DNA, dos Memes, no borbulhar dos pensamentos,

Está a ancestralidade sarda que atravessou o mar...



Crônicas do Sardo Mineiro

A CHAVE DO TEMPO

Em sonho, veio uma revelação inesperada, através do Anjo dos Pastores sardos. Da longínqua Criação do mundo veio uma herança maior aos homens, a chave do tempo. Não era uma arca, não era de ouro, um troféu, nenhuma tradição oral, nada de pedras ou ervas sagradas, mas o divino som dos sinos. A sua perfeita afinação é a chave do tempo. E o vento que leva seus segredos, pode trazer de volta o ressoar dos tempos, como o ir e vir das ondas. Tem o som do Universo, do equilíbrio e da Criação do Mundo. Tem o segredo dos tempos passados e a sintonia com o futuro.

São muitos os sinos e suas finalidades. Os sinos das naves ao mar e aqueles que guiam nos faróis em tempos ruins. Os sinos dos Nuraghes, da idade do bronze. Os sinos das igrejas e o anúncio do sagrado. O sino fúnebre. O sino do natal, anunciando a Boa Nova. O sino da contemplação budista ou tibetana. Sino dos Ventos alertando os tornados. O Sino do garçom, saindo o prato perfeito, a hora da degustação.  O Sino da portaria do hotel para a chegada do hóspede. O Sino da cultura dos Mamuthones. Os Sinos de alerta das Cabras aos pastores. O sino que aportou junto com as caravelas, na fundação de Pindorama, em terras distantes da Sardenha. Ressoa a partida, a promessa, a chegada, a alegria, distribuindo bênçãos.

Sete por cento da população convive com um zumbido nos ouvidos, um tal “Tinnitus”. Não tem causa mecânica ou clínica, vão e vem sem motivo qualquer, sem ter qualquer remédio que o encerre definitivamente. Há cerca de cinco anos, muito incomodado pelo zumbido e após uma leva de antibióticos sem nenhum resultado, fui a um médico de nome Wilson, mineiro de Pouso Alegre e a resposta que tive dele foi que: “...enquanto falava do seu zumbido, acabou de alertar o meu”. E concluiu que era normal, era só não preocupar com ele, desencanar, que ele partiria como veio. Então, comece a pesquisar também, assim como fui instigado. Chegará em 432 hertz, frequência do Universo, o zumbido primordial. Surpreenda com a “Afinação de Verdi”, o compositor italiano que sintonizou em suas composições nesta frequência. Se adentrar o campo místico, se encantará pela Terapia dos Sinos, principalmente na cultura oriental.


Em 1821, em Cagliari, Ilha da Sardenha, o construtor Raffaele Cappai reformou o sino da igreja barroca. Em 1969, o módulo lunar da Missão Apolo 12 foi arremessado na lua e ela soou como um sino por oito minutos, gerando até hoje um enigma para os cientistas. Em 1978, na época seminarista, toquei o sino da Catedral de Leopoldina e fascinei pelo ressoar sagrado dos sinos. Em 1986, maravilhei com o repicar contínuo dos sinos na Semana Santa em Ouro Preto. Em 2 de Abril de 2005, os sinos repicaram no mundo todo pela morte de João Paulo II. Hoje, me divirto no quintal de casa fazendo Sinos de Vento e escutando suas diversas entonações na passagem dos ventos. Viajo na parte de minha alma, dos pastores ancestrais, que escutava suas cabras ao largo. Quantas histórias e recordações trazidas no ressoar dos sinos, se revelando a “chave do tempo” dita pelo Anjo dos Pastores Sardos...

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Família Cappai - Registro Fotográfico

Registro fotográfico de parte dos descendentes de Raffaele Cappai, em Leopoldina, na Zona da Mata Mineira, em Julho de 1982, há 35 anos. Este registro se deu 85 anos após o raro ingresso dos sardos em Minas Gerais.


Esquerda para direita:  Edna Lúcia, Daniella Maria, João Batista e José Capaz (Netos de Raffaele, representando a segunda geração de sardos nascidos no Brasil), seguido de João Capaz de Oliveira (Filho de Raffaele, representando a primeira geração de sardos nascidos nos Brasil) e Lêda Maria Campos Capaz, a segunda esposa de João Capaz.


João Capaz de Oliveira apresentando sua família, em Leopoldina de 1982. Aposentado do DER - Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais, está hoje com 83 anos, é portador de Alzheimer e reside em Juiz de Fora.


Foto de meu nonno Raffaele Cappai (Nome no Brasil, Rafael Capaz), sepultado em Leopoldina, MG, em 1963. Filho de Giuseppe Cappai e Maria Annica Gessa, ambos nascidos em Villasalto, sul da Ilha da Sardenha, Itália.




quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Em homenagem aos Pastores Sardos


Volta e meia deixo a barba crescer, identificando no espelho a aparência do que seria meus ancestrais sardos, orgulhosamente pastores e agricultores da pequena Villasalto, no sul da Sardenha. Gostaria de estar na região de Gerrei, a olhar cabras e ovelhas e caminhar pelo terreno rochoso e alto da acolhedora ilha. Misturar aos pastores, contar e ouvir histórias além mar.

Há 120 anos, a família de meu bisnonno Giuseppe Cappai (Onomástico), chegou ao Brasil, trazendo a semente de nossa árvore genealógica para a América. Muito agradeço a ele e minha bisnonna Maria Annica Gessa. Que os sonhos se perpetuem...




A árvore da vida renova seus galhos...


A vida se renova com o crescimento da pequena família Cappai. Esta é minha filha Gizelle, formada recentemente com louvor em Engenharia Civil pela PUC de Poços de Caldas, trazendo nos braços a netinha Isabel, com apenas 17 dias de idade. Dois grandes presentes nesta virada de ano.


A primeira visita de Isabel em Pouso Alegre, neste início de fevereiro de 2017, é da bisavó Marta Marra Kersul, 87 anos, que tem 17 netos e sete bisnetos.

  

No dia seguinte, a visita do Tio avô João Batista (mio fratello), de Itajubá - MG. Não falta braços e mimos para a pequena Isabel. Que San Michele proteja seus caminhos.